domingo, 7 de setembro de 2014

Espectando o espectador

Foto de André Lucap
O espectador da Pequena Companhia de Teatro passa por uma experiência diferente de qualquer outro espectador de teatro. Este que vos escreve, tem por prática, acompanhar o desempenho do espectador enquanto a sessão acontece. Espécie de voyeur de luxo, essa mania acentuou-se a partir do espetáculo O Acompanhamento, e me acompanha até hoje. Sim, eu vejo cada cochilo, riso, suspiro, bocejo, choro ou ronco seu. Sentiu-se constrangido? Acontece que o teatro tem transgredido a relação entre palco e plateia, e isso acarreta uma presença muito mais efetiva do espectador, exigindo dele uma prontidão maior. Sim, assim como o espectador tem se tornado cada vez mais exigente com o artista, o artista tem se tornado cada vez mais exigente com o espectador, para que o diálogo se fortaleça, e favoreça a construção de um teatro mais inteiro, dinâmico e contracultural. Meu prazer está em espectar você, e avaliar de que maneira esses atores (você e o espetáculo) dialogam e constroem a significação do que a companhia propõe para reflexão. Não, não tem nada a ver com um modismo de público participativo, anônimo em cima do palco ou personagens invadindo a plateia, apenas eu, dissimuladamente, vendo você. Claro que você não percebe, porque as montagens sempre seguem uma configuração que possibilite a prática sem que seu incômodo aconteça, contudo, eu estou lá, observando... Analisando... Avaliando... Sentiu um frio na barriga? É isso mesmo. Saiba que a exigência, aqui, não está apenas para o ator. No nosso caso, o encontro teatral também serve para refletir sobre o espectador – esse cidadão, que é um ser sócio-político-cultural sobremodo transformador (ou não) do seu entorno. Você, na sua cadeira, é tão importante quanto o ator que representa, por isso, a sua responsabilidade é tão integradora quanto a do artista que você observa. Nossa exigência avança na busca do diálogo com o espectador disposto, atento, presente, pensante. Quer pipoca e refrigerante? Vá a uma lanchonete. Quer sacudir a cabeça? Vá a uma boate. Quer gritar? Vá a um parque de diversões. Quer acreditar na torpe utopia de mudar o mundo? As portas da Pequena Companhia de Teatro estarão sempre abertas. Exigentes, porém, abertas.

domingo, 31 de agosto de 2014

Arte & Mercado


Como estabelecer uma relação de comprometimento com a atividade artística e seu foco de reflexão, sem deixar que interesses econômicos comprometam seus resultados estéticos e dialéticos? O exercício artístico profissional transita por campos imponderados que vão além da arte, e a necessidade de extrair desse exercício o sustento para viver, pode ser uma armadilha ardilosamente perigosa. Para o artista profissional, se faz necessário um policiamento permanente, para que mudanças de rumo na carreira, e na forma e conteúdo das suas obras, não sejam justificadas por babéis argumentativas, servindo apenas para dissimular um notório descomprometimento com a sua arte, em prol do mercado. Nesse caso – se percebida a influência econômica no conteúdo programático do seu processo, na organicidade da sua prática, no resultado da sua obra – recomenda-se o desvinculo profissional, para não comprometer seus resultados artísticos. A mudança de fonte de renda, buscando a independência financeira através de outras atividades, pode proteger o artista, desprendendo-o da falha argumentação da necessidade de se adequar ao mercado, pois, muitas manifestações artísticas, são impassíveis de adequação – conforme problematiza o fragmento de um manifesto nunca publicado, que utilizo aqui para concluir:

“[...] o teatro experimental, de pesquisa, de vanguarda, marginal, laboratorial, impopular – ou como queiram chamar o teatro que não busca apenas o entretenimento (Dicionário do Teatro Brasileiro/J. Guinsburg) – é dínamo incansável para o desenvolvimento sociocultural e artístico de sua época. Esta opção artística não é compatível com as leis de mercado [...] por não objetivar o lucro como resultado final, e sim o questionamento, a revisão ou a transgressão dos valores sociais, políticos, estéticos e culturais da sociedade onde se manifesta.

Obra de arte não é produto – afirmação herética para os liberais de plantão. Torna-se produto dependendo de uma série de fatores e circunstâncias que dialoguem com o mercado vigente.

Se uma obra, posteriormente à sua criação, polariza opiniões, acaba afugentando os investimentos que tem por prática valorizar o consenso. Porém, uma obra digna não deve abrir concessões no momento da formulação do seu dizer: está aí o paradigma que incompatibiliza obra de arte e mercado [...].”

Ofereço o pano para a manga. Traga a agulha e a linha.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Nominar

Estou em processo de montagem de um espetáculo-solo. Ou seria uma performance? Ou um picadeiro de clown? Teatro ou circo? Drama ou comédia? Farsa? Personagem ou persona? 
Lango-Lango Retardatário (2005)
Resido num momento em que a necessidade da satisfação pessoal se renova e que, mais do que nunca, estou aberto às interferências/influências provenientes sabe-se lá de onde, quando estou em processo, independentemente dos procedimentos.
O segredo do labirinto (2007)
A sala de ensaio é território de experimento e de sensibilidade: Leva-se roteiro, procedimentos, objetivos até bem claros de onde chegar, mas o corpo reage a sua maneira. O planejado se reconfigura, desiste de você para dar lugar e vazão a outras questões que afloram. 
Interstício (2007)
Nominar parece-me, neste instante, desnecessário, pois se é processo, tudo se configurará. E por que não dar ao expectador o benefício da dúvida ou de uma certeza só sua, pois o senso comum não diz que cada um tem a sua própria verdade? 
Canto da solidão... (2009)
A obra de arte sempre terá referências, não só de quem a idealizou, mas também de todo o contexto histórico da qual os expectadores participaram. São essas memórias de coisas que vivemos que nos dará estofo para a leitura possível da obra. Mais ativa essa plateia, impossível. 
Requiem aeternam (2009)
E se há papeis e atribuições definidas entre os seres (expectador e artista, por exemplo), por que não questioná-los? Compreendo que, quanto mais vazio de preconceitos, mais potência para o preenchimento desse vazio teremos.

Essa é a minha verdade. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Parabolicamente falho

- Sim, o  conhecimento, de nada te serve?
Não sou antenado. Me inquieta precisar saber, entender e falar de tudo e de todos. Essa habilidade de anedota, diz respeito a uma demanda contemporânea de inclusão e pertencimento, potencializada pela individuação e isolamento pela qual padece o homem contemporâneo. Creio no pertencimento a partir da interação natural com o entorno. Viver o que nos rodeia, sem que o raio dessa circunferência extrapole a lógica do nosso interesse: é mesmo importante saber quem é Anita? Não sei o significado de MC para a música, nem conheço o grande vanguardista do teatro contemporâneo do mês passado. Polissemias e polifonias confundem o meu raciocínio, contudo, procuro não confundir informação com conhecimento – aqui confundi-los-ei, propositadamente. Prefiro a calmaria da busca pelo conhecimento necessário à tempestade da informação me buscando. A calmaria é seletiva e permite a degustação, a tempestade é invasiva e pode provocar afogamento.  Quando grito para o meu desajustado cérebro, buscando algum conteúdo, e este dá de ombros, como dizendo – te vira, respiro fundo e respondo para o meu interlocutor – não sei. De uns tempos para cá, essa sentença tem se repetido com maior frequência, por compreender que, certas coisas que outrora pensava saber, eram apenas simulacros de conhecimento. Quando jovem é mais difícil dizer – não sei, pois, a necessidade de autoafirmação, nos obriga a saber de tudo, mesmo sem ter ciência de coisa alguma. Com o passar do tempo, percebemos que não somos obrigados a estar informados sobre tudo, e que não saber pode ser divertido, pois, te obriga a estudar. Em verdade vos digo: é bom não saber demasiadamente e melhor ainda é não ser o rei da informação. Ameniza a ansiedade, alivia o estresse, e desonera o coitado do seu interlocutor, que não terá mais que ouvir o quanto você é antenado. O tempo pode não ser o melhor remédio, porém, é o melhor companheiro.  Hoje sei que não sei muita coisa, só não sei se nada sei.
 
P.S.: Só não confunda sábio com sabido.
 
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os processos

Gosto de dizer que tudo está passível de mudança. Fechar-se equivale a morrer para as possibilidades outras que não aquela escolhida como identitária, definitiva. Nada o é.

A Pequena Companhia de Teatro tem no "Quadro de Antagônicos" seu procedimento metodológico para treinamento do ator e composição das personagens. Fiz parte de Entrelaços, Pai & Filho e Velhos caem do céu como canivetes e todos utilizaram esse mesmo procedimento. 
Entrelaços
Imagine o frescor de provar pela primeira vez o gosto do beijo da pessoa amada, ou experimentar o prazer provocado por uma Coca-cola com gelo e limão numa tarde ensolarada, à sombra de uma frondosa árvore. Essas experiências primeiras não se repetem, mesmo que continuemos a beijar a mesma pessoa e a tomar o mesmo refrigerante eternamente. As experiências são únicas, mesmo que a configuração possa aproximar daquela primeira sensação. Assim percebo os processos de encenação. 
Velhos caem do céu como canivetes
Podemos repetir infinitas vezes o mesmo procedimento para a montagem de nossos espetáculos, mas esse debruçar sobre a teoria na prática, num recorte único de tempo/espaço será inédito em sua configuração, sem contar com a nossa compreensão do método e da vida: mudamos, permanentemente, porque estamos em processo. Dizem que tem algo a ver com a maturidade. 

O viver para mim é experienciar, sempre.

sábado, 9 de agosto de 2014

Projetando sonhos


Enquanto apresentamos Pai & Filho [toda segunda-feira, às 19h, na Rua do Giz, 295, com entrada franca (adoro parênteses retos)], e ainda realizaremos seminários e leituras dramáticas, o momento é de projetar o ano de 2015. Projetos, aos borbotões, começam a ser esboçados, confeccionados, desenterrados, reinventados no intuído de continuar fazendo a única coisa que sabemos: teatro. Editais exigem projetos. Projetos são desejos não realizados que sempre tivemos e que, em determinado momento, o sistema nos autorizou a sonhar. Publicar um livro, montar uma banda, viajar pelo país com uma peça de teatro, escrever um romance... Sonhos, que em meados da década de oitenta estavam mais para delírios – lembrem sempre que falo de um passado no interior do Maranhão. Hoje podemos sonhar. Posso. Claro que sou engajado, e sei de todos os problemas que nos cercam, conteúdo do discurso que vocês estão acostumados a ler por aqui. Sei também que se novas políticas culturais públicas municipais, estaduais e federais eficientes não forem implantadas corremos os risco de morrer de fome já em 2015. Contudo, quem viveu como eu o passado de querer fazer teatro, não pode jamais se distanciar dele ao ponto de não enxergar as conquistas conseguidas depois de tanto lutar. Hoje a profissão é uma realidade. Outrora o amor provido pelo amadorismo era o combustível. Foi a nossa resistência que obrigou o poder público a se lembrar de que tem gente no país que insiste em fazer teatro. A conquista é nossa e o resultado está aí, por isso, não me queixo. Alguns podem dizer que fazer um projeto não é trabalho para um artista. Penso que todo projeto é um sonho indo para o forno. Eu não consigo imaginar ninguém pensando nossos sonhos melhor do que nós, artistas que os sonhamos. Romântico, outra vez. Mãos à obra, de arte!

domingo, 3 de agosto de 2014

Andanças de Pai & Filho


São Luís/MA → Imperatriz/MA → Balsas/MA → Riachão/MA → Presidente Prudente/SP → Guaramiranga/ CE → Natal/RN → Santos/SP → Rio de Janeiro/RJ → Timon/MA → Teresina/PI → Sobral/CE → Fortaleza/CE → Mossoró/RN → Santa Inês/MA → Belém/PA → Castanhal/PA → Parnaíba/PI → Palmas/TO → Porto Nacional/TO → Maceió/AL → Teotônio Vilela/AL → Palmeira dos Índios/AL → Arapiraca/AL → Vitória/ES → Caxias do Sul/RS → Passo Fundo/RS → Ijuí/RS → Santa Maria/RS → Porto Alegre/RS → Cuiabá/MT → Feira de Santana/BA → Recife/PE → Macapá/AP → São João do Miriti/RJ → Blumenau/SC → Itajaí/SC → Tubarão/SC → Paranavaí/PR → Curitiba/PR → São Paulo/SP → Belo Horizonte/MG → Porto Velho/RO → Florianópolis/SC → Rio do Sul/SC → Lages/SC → Chapecó/SC → Caxias/MA → Itapecuru Mirim/MA → São Bernardo do Campo/SP → Botucatu/SP → Franca/SP → Rio Claro/SP → Marília/SP → Piracicaba/SP → Campinas/SP.
 
111 apresentações, em 56 cidades de 19 estados, durante 04 anos de espetáculo, e você ainda não viu. Aproveite a temporada regular que acontece em São Luís, toda segunda-feira, 19h, na rua do Giz, 295, com entrada franca, até 22 de setembro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Mais um processo

Terça-feira começo o processo de montagem do meu novo espetáculo-solo, com estreia para o dia 29/09 (segunda-feira), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro. 

Meus processos, quando estou sozinho, são sempre uma incógnita e o resultado, comumente hermético. Este será diferente. Todo esquematizado na pré-expressividade e expressividade, observadores, roteiro escrito e... não será hermético. Certamente o espetáculo mais leve que farei. 


Não tenho temores ou pudores, pois acredito no que faço e acredito também que artista que se preza, tem que dar a cara para bater. Minha humildade franciscana me escancara às críticas. Cresço com elas e acho extremamente importante ouvi-las dos meus pares, pois aqui nesta terra a dificuldade em conseguir um diálogo com os fazedores teatrais existe. Entro em uma seara diferente da minha, mesmo passando pelas sábias mão de Lucio Tranchesi, Alexandre Luís Casali, Fernando Vieira, Ciléia Biaggioli e Ricardo Puccetti.

Serei criterioso em repassar o processo semanalmente por aqui. Os registros serão importantes para montagens posteriores, pois meu desejo continua a ser o abismo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um homem cheio de novidades


E aí, quais as novidades? - Sou um homem sem novidades. Meus dias se repetem, respondo.

Tudo muda. Hoje, sou um homem com novidades. Aliás, este ano está se mostrando assim. A sensação de "pela primeira vez" está recorrente: sede nova, reapresentação de Pai & Filho em São Luís depois de longos anos, manutenção de repertório (desde a década de 80 que não sentia mais esse frisson), escassez de recursos para sobrevivência, solidões noturnas.


Há uma certa ideia de reinvenção em tudo isso. Ocupar o espaço urbano e espetáculo-solo, por exemplo, não reforçam ineditismos, mas estabelecem relações com a recuperação de ações passadas, como se o fato fosse negar a necessidade da novidade. Aliás, o que é novo? Talvez a novidade se estabeleça no acréscimo do tempo, em que o simples fato de estar se estabelece enquanto novo. Tudo que olhamos é novo, experienciamos, tocamos. É que nunca fora olhado, experienciado, tocado, com o acúmulo de informações que somos bombardeados a cada instante. 


Dessa forma, consolido-me como um homem de novidades. Tudo é novo enquanto envelheço. Este ano ainda promete mais, como os que virão: Pequena Companhia de Novidades.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Você sabia que...


... o espetáculo VELHOS CAEM DO CÉU COMO CANIVETES foi selecionado para o 21° Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga? A Mostra Nordeste, que acontece de 06 a 13 de setembro, recebe espetáculos de todos os estados nordestinos e a Pequena Companhia de Teatro será a representante maranhense na edição de 2014. Apesar da recente estreia, esta será a quinta participação do espetáculo em uma mostra ou festival de teatro, que já totaliza vinte e oito apresentações.

domingo, 29 de junho de 2014

Estamos em pleno lar

A retomada das nossas atividades, depois do recesso provocado pela copa do mundo, dar-se-á dia 21 de julho, com o início da temporada regular de Pai & Filho – pela primeira vez na Sede da Pequena Companhia de Teatro. Com isso, a configuração espacial do nosso teatro, área multiuso, sala de tortura, lugar de cena, ou qual alcunha você queira dar ao salão onde você prestigiou o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, mudará completamente – confirmando a versatilidade do espaço e enchendo meu tempo com uma alegria incomum. O tema, e o trabalho que ele demanda, são meus entretenimentos atuais. Entre um jogo e outro, ou com uma TV a tiracolo, me divirto reconfigurando o ambiente. Subo as escadas e instalo uma bambolina aqui, um cabo de aço acolá, uma corda ali, uma arquibancada lá, e o espaço onde outrora caíra um velho ser alado vai se transformando no ambiente de um pai enfurecido. O que propomos com a nossa sala de teatro é próximo à vivência que tive na cidade de Catania – Itália, onde toda a estrutura técnica de maquinaria (varas, contrapesos, cabos, cordas) foi herança vinda do mar, extraída da experiência adquirida nas embarcações, quando o teatro, ao utilizar mão de obra oriunda do porto, sem perceber, assimilava para si a expertise do homem do mar, com suas cordas, nós, mastros, roldanas e força. No teatro Massimo Bellini, apesar de ser um clássico teatro de ópera, não existe maquinaria fixa, e toda a estrutura técnica é montada e remontada de acordo com a necessidade do espetáculo que será apresentado. Atravessado o Atlântico, essa experiência fecunda a proposta de uma sala forneada com as mesmas cordas, ganchos, roldanas e nós que um dia conduziram os invasores da nossa Upaon-Açu. Você não vê, nem repara, mas por trás de cada apresentação esconde-se um torvelinho de fatores que tornam o teatro esse incomensurável ambiente de sensações. Mire e veja.

domingo, 15 de junho de 2014

Teatro & Futebol

O futebol me abandonou, a arte não. No início da década de noventa eu viajava para Araguaína/TO com uma caixa de livros, entre eles a prosa completa de Borges – presente que me acompanha desde 1987 –, para dividir uma república com jogadores de um time de futebol cujo nome minha memória se ocupou de não reter. Nesse então, morando em Balsas, era atleta e artista simultaneamente, fazendo teatro, música e literatura, há alguns anos. A rotina de artista, em Balsas, me fazia ensaiar até às quatro da manhã.  A mudança para uma rotina exclusivamente atlética, em Araguaína, me fazia madrugar às cinco da manhã, para treinar. O despertador escolhido pelos meus companheiros era um som sintonizado na rádio local que gritava: eu não vou negar que sou louco por você! Acredite. Deixe sair aquele sutil sorriso no canto da boca: sim, também tive o sonho de ser jogador de futebol. Não me pergunte por que motivo, mas este era o meu principal desejo. Não durou muito, ou seja, o teatro que faço é consequência do meu maior fracasso. Recentemente, na plateia de Velhos caem do céu como canivetes, um espectador comentava: só conhecia você como o argentino, cabeludo, bom de bola. Além de estufar meu peito, o fato serviu para confirmar meus predicados futebolísticos para minha companheira – sempre reticente com minhas possíveis fabulações sobre o passado. Sim, eu era bom. Considero-me melhor jogador no passado do que sou encenador no presente – se isso quer dizer alguma coisa. Por isso, não saberia apontar por que não sou um jogador aposentado. Talvez a aleatoriedade defendida pelo Ser Humano, personagem do nosso último espetáculo, seja a única maneira de explicar o encenador de hoje. A aleatoriedade como que minha vida e trajetória foram constituídas é digna de nota... O gordo prólogo que aqui escrevo só existe para tentar explicar a sentença que motiva esta postagem: não acompanharia sessenta e quatro peças de teatro em um mês de festival, mas assistirei aos sessenta e quatro jogos da copa sem o menor constrangimento. Mas, como sou uma ficção, não dê muito crédito às anedotas que constroem o roteiro da minha vida. Y dale!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Recesso

Do filme "Sonhos", de Kurosawa

As apresentações estão suspensas. A realização da Copa do Mundo no Brasil sentencia que todos gostam de futebol. Não me espanta. Mês para produzir, pensar, refletir e executar ações adiadas há tempos. Planejamos o próximo semestre: volta de Pai & Filho à cena teatral ludovicense - oportunidade para alguns tantos assistirem a um outro espetáculo. Jorge C. tira a barba e eu a deixo crescer em meu rosto. Muda a energia, as personagens. Os atores são os mesmos; o espaço, não. Primeira vez de Pai & Filho na sede da Pequena. Tudo é muito recente este ano. Mudança de ciclo, amadurecimento, pesquisa. Tenho minhas inquietações e elas repercutem em meus sonhos; muitos sonhos, todos eles emblemáticos. Mesmo gostando de rotinas, a cada ano que passa eles têm se tornado atípicos. Para quem não curte surpresas, estou bem servido delas. Se me queixo? Aguardo o desenrolar das horas. Se sofro? Abraço todas as sensações que meu corpo experimenta. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Esse ator


Se eu sou um tipo, sou do tipo inquieto, e essa inquietude nunca é o suficiente. Buscar sempre, parece-me, é tarefa indistinta de formação: se estou vivo, busco. Contrário disso é a morte, em todas as suas possibilidades. Sempre tenho dúvidas sobre se a profissão do artista chega a ser privilégio ou maldição. Tenho dúvidas também se a minha angústia mais ajuda do que atrapalha. A exigência é desmedida, a ansiedade presente, os processos cíclicos. Não chega a ser um queixume. Os pensamentos evoluem para a palavra escrita. A palavra escrita é manifesto inconteste. Prevalece o dilema entre o de dentro e o de fora. Tudo é acúmulo com possibilidade de vir a ser descarte. Rasgar, colar, emendar, torcer, estirar. O corpo carece de morada e ao mesmo tempo ele é a própria morada. Habitar e ser habitado. O quê nos difere? O quê nos distancia? Assumir a minha unicidade não faz de mim um tolo. Talvez uma descrença tardia na minha incapacidade de recitar um teatro que desacredito como transformador. Quem me transforma? Quem me mobiliza? Esse todo bebo em partes.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

V(ai)(er)dades e mentiras


Para compreendermos as coisas, estabelecemos parâmetros de comparação. Em nossa sociedade tudo é dual; forças antagônicas que nos fazem posicionar entre pois pontos equidistantes: bem e mal; claro e escuro; vida e morte; verdade e mentira.

O teatro envolve a ambos. É ficção, mas espelha sua diegese, suas dramaturgias, na realidade; tem que ser verossímil. 

Alguém disse uma vez que as verdades são ditas quando as pessoas que as ouvem, estão dispostas a ouvi-las. Traduzo como maturidade, a ponto de saber ouvir o que não se quer ouvir. O Teatro caminha por aí em duas vertentes, acho. Uma delas é sua forma e conteúdo que atraem ou repelem o espectador. Gostar ou não gostar tem a ver com esse princípio: não se convencem de que era uma verdade; não a compram como tal. Uma história mal contada. Uma mentira. Comumente queremos ouvir verdades; convencionou-se que as mentiras fazem mal. Então, mentir é ruim e não mentir é bom. E quando mentimos para nós mesmos quando comentamos sobre algo que achamos bom, sendo que achamos ruim? Mentiras contadas permanentemente, acabam se transformando em verdades. Daí minha conclusão que quando mentimos para os outros, também mentimos para nós mesmos. A necessidade de verdade no teatro não se restringe aos que estão em cena, mas também aos que espectam. A maturidade necessária para se ouvir a verdade é alicerce para o fortalecimento do movimento teatral num dado espaço e tempo. Quem faz teatro precisa ser criticado, precisa querer ouvir. Quem vê teatro precisa criticar, precisa ser autêntico e menos apaziguador. 

Desistir também é uma alternativa.

domingo, 25 de maio de 2014

O prazer de ser autônomo

Hoje acordei às 6h10 da manhã – os poucos que conhecem minha rotina sabem o quanto isso é improvável. Levantei e fui trabalhar. De casa ao trabalho são dois lances de escadas, para cima ou para baixo. Trabalhei. Quando o relógio mecânico marcava 8h20, o biológico anunciou que o meu sono voltara. Fiz o trajeto de vinda e voltei para a cama. Simples assim. Não há nada mais delicioso que a autonomia de trabalhar, acordar, comer, namorar, dormir, correr, em qualquer ordem, hora ou dia. Foi a arte que me proporcionou esse privilégio. O teatro. Enquanto fazia algo do que fiz enquanto acordado, pensava no quão romântico continuo sendo. Faço teatro porque gosto. A única motivação que me levou a traçar a minha trajetória foi gostar de fazer o que faço. Se em algum momento da vida tivesse pensado em sobrevivência, o teatro teria me largado. Irresponsavelmente, nunca pensei no que é necessário para viver: livros, comida, água, roupa, luz, telefone, yerba, internet. Tudo sempre veio a reboque de um desejo, de uma vontade, de uma necessidade de expressão que só encontrava guarida no teatro. Irresponsavelmente romântico. Nem o tempo, que promove aquele implacável vergamento do ser, fazendo-o observar atento o chão que pisa sem poder alçar o voo libertário em busca do céu, conseguiu aplacar essa irresponsabilidade. Um romântico irresponsável. Um homem nessa condição não tem direito de protestar – se esse homem só enxerga seu umbigo e não vê a miséria que o circunda. A propósito, Velhos caem do céu como canivetes trata dessa miséria que você finge não ver. Não quer dar pelo menos uma espiadinha? Segunda-feira tem apresentação, às 19h, em uma Pequena Companhia de Teatro perto de você – e bem mais perto de mim.

P.S.: E antes que algum gaiato venha contestar qualquer coisa que eu tenha dito ou contradito, não se esqueçam do principal: eu sou uma ficção.

São Luís, 23.05.2014 – 13h10



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Segundas-feiras


17h30 - Chegada na sede da Pequena Companhia de Teatro. 
  • [Tenho oscilado esse horário. Comumente chego antes para verificar elementos de cena, limpar as cadeiras]


17h45 - Início do alongamento individual e da passada de texto com o Jorge C. 
  • [Ficamos no fundo do cenário, entre a coluna e as pernas. Diferentemente de Pai & Filho, cada um segue um alongamento particular, de acordo com as exigências da personagem e do corpo do ator]


18h - Início do aquecimento, utilizando o Quadro de Antagônicos para tal. A passada de texto continua.
  • [A minha ordem, comumente, é: velocidade/dilatação/retração/agilidade/dureza/máximo/mínimo/gueixa-feminino/samurai-masculino/leveza/peso/tensão/velocidade]


18h15 - Figurino e maquiagem.
  • [Os atores fazem suas próprias caracterizações. Jorge C. me ajuda com a maquiagem das costas e eu o ajudo colocando as asas. Um dia uma delas caiu. eu quis a morte! Percebemos depois que não era minha culpa, minha máxima culpa, mas sim da fita que perdera parte de suas propriedades de aderência]


18h40 - Como uma ou duas maçãs.
  • [Em Pai & Filho comecei a criar o hábito de fazer gargarejo com água morna, vinagre e sal. Um equívoco de minha parte. Sensação de ressecamento das pregas vocais. Depois, mudei para as maçãs. São adstringentes. As massudas não funcionam bem. Mas, quando não tem maçã, o espetáculo acontece assim mesmo. Somos cerimoniosos, mas nem tanto]


18h45 - Origem da personagem.
  • [Há oscilação no horário para a origem. Depende de muitos fatores. Esperamos o contato de Marcelo F. Iniciamos na primeira batida de Molière. Essa origem é para fazer com que o corpo relembre a forma da personagem, a partir dos antagônicos escolhidos por cada um dos atores. Esse procedimento é repetido igualmente antes de cada apresentação. No meu caso: de pé, fecho os olhos, inspiro e expiro 10 vezes, como se meu corpo estivesse buscando um relaxamento proveniente do cansaço exaustivo do corpo. Na última expiração, elevo meus braços acima da cabeça e na última inspiração deixo-as cair em direção ao chão, juntamente com meu tronco. Ainda de olhos fechados, começo a flexionar meu joelhos tentando elevar meu tronco à posição inicial, mas com uma certa dificuldade, proveniente da fraqueza sentida pelo corpo. Com o tronco elevado, já se estabelece um certo equilíbrio precário decorrente da curvatura da coluna, não muito projetada. A cabeça gira 360º para a esquerda e para a direita. A máscara já começa a se consolidar. A coluna um pouco mais curvada. Dou 10 pulos com uma força mínima a ponto de não conseguir retirar ambos os pés do chão. Abro os olhos. Inclino-me para a direita, elevando o pé esquerdo do chão. Uma força mínima e um mínimo de equilíbrio torna essa ação mais efetiva para que o corpo perceba sua fragilidade. Para mim funciona como uma espécie de termômetro. Repito para o outro lado. Pronto, agora posso andar. Ando pelo banheiro compartilhando o espaço com Jorge C. Começo a oralizar parte do texto. Algumas falas se repetem nesse procedimento: "Cobre teu corpo..."; "Meu pai os arrancou..."; "Estou brincando...". Agacho-me de duas a três vezes, repetindo formalizações de cenas do espetáculo. Entre a segunda batida e a terceira, bebo um copo com água previamente deixado sobre a pia. Ressono um pouco mais. Quando ouço a terceira batida, apago as luzes, Jorge C. abre a porta. Saímos e eu a fecho. Ficamos atrás do galinheiro esperando a sonoplastia. Jorge C. vai para a sua marca. Eu continuo, por detrás da coluna, ressonando e andando de um lado para o outro, até o momento de ir à minha marca.


19h - Início do espetáculo.

20h - Término do espetáculo.
  • [Em algum momento volto para casa. Tem noites que feliz, tem noites que triste, tem noite que pensativo. Algumas sensações não são compartilhadas. Há uma necessidade de amadurecimento do sentir, do pensar, a partir da execução a obra. Hoje, as noites de segunda têm estado mais interessantes - como as de quarta-feira. Restam-me alguns dias na semana para eu preenchê-los com arte, com desejo, com ternura]

sexta-feira, 16 de maio de 2014

E como é?

Foto de Gilberto Freire
Ah, os sonhos... Quem não os têm? 

Sonhei que queria trabalhar em algo que me desse prazer, se contrapondo à maioria das pessoas que buscam, através do consumo, o motivo para o labor: dinheiro, casa, carro, viagens. Que caminho é esse que escolhemos querendo ser felizes para o resto da vida? Que felicidade é essa que nos faz sucumbir ao cotidiano ou a necessidade de se agitar, executar ações, trabalhar para prover o sustento?

[apaga tudo]

Acordei, como todo os dias. Vontade de ficar em casa. Pensei, por alguns instantes, que precisava me levantar da cama, fazer o que comumente faço e sair de casa, me exercitar. Pensei na virtualidade das redes sociais, no filme Her, nas possibilidades dos equívocos praticados. Pensei muito. Não há porque chegar a conclusões, e hoje é sexta, não quinta. Sou brasileiro, final de semana, descanso.

[reescreva algo]

Editais para ler, projetos para escrever, postagem para redigir. Demandas. Comida no fogo, ração na tigela. 

Professor, ator, animador de festas, palhaço de frente de loja. Alugo meu tempo. 

[ouça mais música, diriam]

É viver lentamente cada momento, como se a vida não tivesse final garantido, e que as escolhas não foram gratuitas, e que a rotina não é rotina. 

O oxigênio se renova, a respiração, mesmo constante, oscila. 

[Ser ator?]


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maio e junho de 2014


MAIO

Dias 02 e 07, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 08 e 09,  das 08 às 12h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 12, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 17 e 18,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 19, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 20, 21 e 22, das 19 às 22h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 21, 23 e 28, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 24 e 25,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 26, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 27, 28 e 29, das 08 às 12h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 27, 29 e 30, das 14 às 18h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).


JUNHO

Dia 02, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 03, 04 e 05, das 18h30 às 22h30 -  O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 07 e 08, das 14 às 18h30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 09, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).


IMPORTANTE:
Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro 
(Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
A lotação está restrita a 45 (quarenta e cinco) lugares.
As atividades são gratuitas.
Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Novos ecos...

 
a desesperança no palco é espelho para a desesperança dentro, ao redor e fora da ilha, mergulhada numa ausência de planos, horizontes, luzes. o espetáculo 'velhos caem do céu como canivetes', que finalmente fomos ver ontem, é dessas experiências que vão com a gente para casa a nos fazer pensar, rever, ressignificar, repensar, reagir... a renúncia à ação, aos projetos, à vida. um deixar-se ficar com ou sem asas. a simbologia do voo atirada no lodo do mangue e da morte. e ao final, luzes acesas, a certeza de que é na arte que estão as asas que nos elevam e nos levam à ação, ao movimento... arte é vontade, desejo, fome de viver e ao mesmo tempo alimento. livremente inspirado no conto 'um senhor muito velho com umas asas enormes', de gabriel garcía márquez, o espetáculo apresenta em cena o grande teatro mínimo a que se dedica a pequena companhia de teatro. palmas para marcelo flecha, jorge choairy, cláudio marconcine e kátia lopes. permanece em cartaz até junho, às segundas-feiras, sempre às 19h, no casarão da companhia (rua do giz). 
Andréa Oliveira

Ontem fui ver o espetáculo “Velhos Caem do Céu como Canivetes” da Pequena Companhia de Teatro, sai de lá com a certeza de que estão no caminho certo, como trabalho com iluminação, vou tecer elogios para as excelentes soluções encontradas para os momentos, a sincronia perfeita , beleza e leveza das passadas das cenas, tudo num só ritmo, encanto-me ainda pela luz alternativa, a qual venho estudando ultimamente. Obrigado Marcelo Flecha por esse momento, aos atores Claudio Marconcine e Jorge Choairy estão excelentes e a produtora Kátia Lopes que nos recebe como sempre, muito bem. A Pequena Companhia de Teatro merece tudo, que venham mais prêmios e outros incentivos. Aplausos.
Julio Cesar da Hora
 
VELHOS CAEM DO CÉU COMO CANIVETES

Este é o título do espetáculo teatral em cartaz na sede da Pequena Companhia de Teatro, situada na Rua do Giz, quase X com a escola de Música Lilah Lisboa, no centro da cidade (o endereço completo publicarei depois).

Sendo uma adaptação livre do conto “UN SEÑOR MUY VIEJO COM UNAS ALAS ENORMES”, de Gabriel Garcia Marquez, o texto, assinado pelo encenador Marcelo Flexa, tem momentos de rara beleza: de humanidade e de fina ironia.
 
O elenco de dois atores tem um equilíbrio cênico bastante bom. Jorge Choairy, o velho que caiu do céu, com sua atuação quase irrepreensível, faz um perfeito contraponto dramático com a encenação um tanto caricata de Claudio Marconcine, que interpreta o “ser humano” comum. E a carpintaria é sensível e de boa plástica...
 
Bem, isso aqui não é um release, tampouco uma crítica, é apenas um comentário despretensioso de um espectador, que na noite de ontem esteve lá para ver e aplaudir esses bravos rapazes e uma moça, que, antes de tudo, protagonizam uma verdadeira façanha que é fazer teatro de qualidade nesta província onde o folk lore domina as atenções de todos os daqui e dos que vão chegando.
 
(A peça fica em cartaz até o mês de junho, com apresentações todas as segundas, às 19 horas. Eu recomendo fervorosamente!)
 
Luis Mello Neves

 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Formação

Não me sinto seguro, preparado para algumas atividades. Uma delas é atravessar o Canal da Mancha nadando. A outra, é ministrar atividades de formação.

Foto de Marcelo Flecha

A primeira, nunca fiz. A segunda, algumas vezes. Sentia-me despreparado, com uma certa restrição, um certo temor acerca da desnecessidade do ato. 

As mudanças que sempre acometem minha vida não se furtaram em somar as formações a esse rol. Hoje não chega a ser um fardo, mas uma espécie de estufa em que algumas semente são gestadas. Não falo especificamente das pessoas que participam, mas sim do conteúdo adotado por mim, meu processo de elaborar pensamento, articular ideias. 

Nada é inventado. Passa por uma espécie de crivo de recepção e formalização. Reinventa-se o conteúdo e o procedimento. Nada é novo e ao mesmo tempo continua a ser atrativo. Lembro de muita coisa que foi importante e significativa em minha vida. São as importantes que ficam, aquelas que não caducaram, que não envelheceram. E conhecimento é coletivo. Não dá para sentenciar quem é a mãe ou o pai da criança, mesmo sabendo que a identificação do conteúdo e do método é quase automática para alguns.

Outra questão, é pensar que temos o domínio da situação e elocubrar sobre os desdobramentos. Nessa perspectiva, tudo torna-se inútil e desnecessário.

Estou me reinventando nas atitudes, nas situações, nos incômodos, no ofício. Tudo faz sentido.



domingo, 27 de abril de 2014

Leituras dramáticas

No dia 11 de março de 2009 a Pequena Companhia de Teatro realizava sua primeira Leitura Dramática, buscando estabelecer essa prática como mecanismo de instigação criativa e posterior inter-relacionamento entre artistas amigos – apesar de exercitarmos leituras esporádicas desde 2005, foi nesse dia que iniciamos um ciclo mais efetivo. 
 
 O objeto de leitura do dia foi a Valsa N° 6, de Nelson Rodriguez, por Jorge Choairy.
 
De lá pra cá, diversos amigos passaram pelo pequeno palco e saboreamos juntos de momentos incomuns que ficaram plasmados em nossa memória afetiva e corporal.
 
Agora, o projeto Teatralidades propõe alargar essa experiência e estendê-la a companhias de teatro da cidade com as quais tenhamos uma identificação ou apreço mútuo.
 
A ideia conceitual não muda: separar um momento para o diálogo com amigos que se encontram forneando a experiência de produzir em coletivo, alavancando o teatro de grupos maranhense.
 
Diferentemente das experiências anteriores, as Leituras Dramáticas do projeto Teatralidades serão abertas ao público gratuitamente, aumentando o alcance da experiência e robustecendo o intercâmbio com o espectador, contudo, a atividade se fundamenta na possibilidade de diálogo entre os pares, seus processos, seus mecanismos de trabalho, seus dilemas, sabores e tensões.
 
A partir de maio, na última sexta-feira de cada mês, uma companhia, grupo ou amigos artistas realizarão leituras de textos da dramaturgia contemporânea, e nós os ciceronearemos para que a experiência seja leve, prazerosa e produtiva.
 
Abriremos nossa casa com o intuito de que esses coletivos possam estabelecer uma familiaridade com o ambiente, possibilitando a experiência de experimentar nosso palco, conhecer nosso espaço, aumentando as chances de que venham a apresentar seus trabalhos aqui em breve. É um pequeno gesto. Uma ideia. Cabe a quem quiser se arriscar responder ao aceno.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O olhar de quem especta

Caro Marcelo,
 
Finalmente ontem, depois de tanto esbravejar com a Lei de Murphy, com os corpos celestes e com as entidades divinas, consegui assistir ao espetáculo Velhos Caem do Céu Como Canivetes. Enquanto aplaudia aquela brilhante produção, tentava me recompor do estado de êxtase que me fora proporcionado. Não o êxtase da alienação, não o “não saber de mim”; mas um outro tipo de êxtase: o êxtase da espectadora encantada. Lembro-me de ter visto partes daquele cenário quando daquela agradável conversa que tivemos sobre o Quadro de Antagônicos, na época em que eu escrevia meu TCC. Agora ali, com os atores e a luz, nem pareciam mais os mesmos objetos. Foi como se, de repente, aquela cena fosse o outro lado do espelho... Pois bem, vou deixar de meus devaneios poéticos e antipáticos.
 
O espetáculo me fez pensar acerca de muitas coisas. A primeira delas, e talvez a mais importante ou a que resume as demais, é a potência do discurso teatral, e a multiplicidade de escolhas que o geram. Fala-se de muita coisa durante a peça, mas o ponto para o qual tudo converge é um só: o ser humano e sua existência – seja ela miserável ou não, falida ou não. Fico pensando sobre os últimos bons trabalhos que vi, e me dou conta de que esse é um tema muito bem aproveitado quando – parafraseando você – se tem algo de importante a dizer. Importante só, não. Visceral. Claro que alguém pode retrucar: mas e o ser alado? A história dele não conta? Pra mim, o que parece é que o ser alado é tão humano quanto o ser humano. Crescem nele, espelhadas, todas as inquietações humanas. Já não há esperança para ele, e ainda assim, ele espera. Sabe que é um pária, e ainda assim, quer voltar. Que maior e mais fino retrato da miséria humana, senão esse? Outra coisa que fiquei pensando bastante foi a ausência de um tempo-espaço bem delineados. Veja, não estou dizendo que não existem, estou dizendo que pra mim pareceu que a peça acontece em "qualquer lugar", a "qualquer tempo" (mesmo as latinhas de Jesus não me deram a sensação de um pertencimento geográfico, e sinceramente, achei isso bárbaro!). Na verdade, é como se fosse um instante de suspensão. Talvez o delírio do ser humano, que vê uma galinha-anjo-morcego acabe chegando tão perto de mim que eu não vejo ou não quero ver onde e quando esse delírio acontece... Quem sabe?
 
Talvez o fato de conhecer o texto no qual a peça foi inspirada tenha ampliado em mim alguns direcionamentos de olhar. O fato, por exemplo, do ser humano não ter se espantado com um ser alado caído em seu quintal remete à uma das primeiras partes do texto de García Márquez. Conhecer esse detalhe talvez tenha feito com que eu admirasse o trabalho ainda mais, pois o autor de Velhos... parece ter encontrado soluções simples, físicas e sutis para os ditos e não-ditos do autor do primeiro texto. As cores do espetáculo também são de uma beleza... Não só a cor da luz, mas a cor dos elementos de cena, a cor das personagens, a cor do tapete que delimita o espaço. Sobre isso, tenho uma questão: como você chega à cor nos seus espetáculos? Sempre vejo trabalhos com iluminações lindas, mas na maioria das vezes, ou isso vem de uma incrível sensibilidade, ou de muita sorte. Mas e com vocês, como acontecem essas escolhas? Para os olhos, acaba sendo também uma festa, uma vez que as cores se afinam. Mas por falar nisso, nada me pareceu mais afinado que a movimentação dos atores. Na fala de alguém durante o debate, “a peça é um verdadeiro balé”! É como se a relação dual não ficasse somente nos personagens e em seus antagonismos, mas também na própria imagem do espetáculo e na forma como os atores se deslocam pelo espaço, dando ao espectador a compreensão de dois mundos distintos, que ora se atraem, ora se repelem. O mundo do ser humano e do ser alado? Também. Mas principalmente o mundo dos que creem e dos que não creem. Dos que esperam e dos que desesperam. E se parecem completamente diferentes a uma primeira vista, conforme a história acontece percebemos que essas diferenças têm a razão de serem contraditórias – pra eles e pra nós. Sim, pra nós. Porque os velhos caem do céu como canivetes não só no quintal de um ser humano descrente e sonâmbulo, mas cai no quintal dos espectadores também. Acaba se tornando um morcego sideral dentro do nosso espaço de existência também.
 
A propósito, não decidi o que fazer com aquele ser alado. Uma galinha? Um delírio? Um anjo? Um norueguês? Um morcego sideral? Talvez eu decida, talvez não. Por enquanto, pra mim, ele é dúvida, mesmo quando crê.
 
Saúde, luz e paz. E vida longa à Pequena.
 
Rute.