terça-feira, 22 de abril de 2014

O olhar de quem especta

Caro Marcelo,
 
Finalmente ontem, depois de tanto esbravejar com a Lei de Murphy, com os corpos celestes e com as entidades divinas, consegui assistir ao espetáculo Velhos Caem do Céu Como Canivetes. Enquanto aplaudia aquela brilhante produção, tentava me recompor do estado de êxtase que me fora proporcionado. Não o êxtase da alienação, não o “não saber de mim”; mas um outro tipo de êxtase: o êxtase da espectadora encantada. Lembro-me de ter visto partes daquele cenário quando daquela agradável conversa que tivemos sobre o Quadro de Antagônicos, na época em que eu escrevia meu TCC. Agora ali, com os atores e a luz, nem pareciam mais os mesmos objetos. Foi como se, de repente, aquela cena fosse o outro lado do espelho... Pois bem, vou deixar de meus devaneios poéticos e antipáticos.
 
O espetáculo me fez pensar acerca de muitas coisas. A primeira delas, e talvez a mais importante ou a que resume as demais, é a potência do discurso teatral, e a multiplicidade de escolhas que o geram. Fala-se de muita coisa durante a peça, mas o ponto para o qual tudo converge é um só: o ser humano e sua existência – seja ela miserável ou não, falida ou não. Fico pensando sobre os últimos bons trabalhos que vi, e me dou conta de que esse é um tema muito bem aproveitado quando – parafraseando você – se tem algo de importante a dizer. Importante só, não. Visceral. Claro que alguém pode retrucar: mas e o ser alado? A história dele não conta? Pra mim, o que parece é que o ser alado é tão humano quanto o ser humano. Crescem nele, espelhadas, todas as inquietações humanas. Já não há esperança para ele, e ainda assim, ele espera. Sabe que é um pária, e ainda assim, quer voltar. Que maior e mais fino retrato da miséria humana, senão esse? Outra coisa que fiquei pensando bastante foi a ausência de um tempo-espaço bem delineados. Veja, não estou dizendo que não existem, estou dizendo que pra mim pareceu que a peça acontece em "qualquer lugar", a "qualquer tempo" (mesmo as latinhas de Jesus não me deram a sensação de um pertencimento geográfico, e sinceramente, achei isso bárbaro!). Na verdade, é como se fosse um instante de suspensão. Talvez o delírio do ser humano, que vê uma galinha-anjo-morcego acabe chegando tão perto de mim que eu não vejo ou não quero ver onde e quando esse delírio acontece... Quem sabe?
 
Talvez o fato de conhecer o texto no qual a peça foi inspirada tenha ampliado em mim alguns direcionamentos de olhar. O fato, por exemplo, do ser humano não ter se espantado com um ser alado caído em seu quintal remete à uma das primeiras partes do texto de García Márquez. Conhecer esse detalhe talvez tenha feito com que eu admirasse o trabalho ainda mais, pois o autor de Velhos... parece ter encontrado soluções simples, físicas e sutis para os ditos e não-ditos do autor do primeiro texto. As cores do espetáculo também são de uma beleza... Não só a cor da luz, mas a cor dos elementos de cena, a cor das personagens, a cor do tapete que delimita o espaço. Sobre isso, tenho uma questão: como você chega à cor nos seus espetáculos? Sempre vejo trabalhos com iluminações lindas, mas na maioria das vezes, ou isso vem de uma incrível sensibilidade, ou de muita sorte. Mas e com vocês, como acontecem essas escolhas? Para os olhos, acaba sendo também uma festa, uma vez que as cores se afinam. Mas por falar nisso, nada me pareceu mais afinado que a movimentação dos atores. Na fala de alguém durante o debate, “a peça é um verdadeiro balé”! É como se a relação dual não ficasse somente nos personagens e em seus antagonismos, mas também na própria imagem do espetáculo e na forma como os atores se deslocam pelo espaço, dando ao espectador a compreensão de dois mundos distintos, que ora se atraem, ora se repelem. O mundo do ser humano e do ser alado? Também. Mas principalmente o mundo dos que creem e dos que não creem. Dos que esperam e dos que desesperam. E se parecem completamente diferentes a uma primeira vista, conforme a história acontece percebemos que essas diferenças têm a razão de serem contraditórias – pra eles e pra nós. Sim, pra nós. Porque os velhos caem do céu como canivetes não só no quintal de um ser humano descrente e sonâmbulo, mas cai no quintal dos espectadores também. Acaba se tornando um morcego sideral dentro do nosso espaço de existência também.
 
A propósito, não decidi o que fazer com aquele ser alado. Uma galinha? Um delírio? Um anjo? Um norueguês? Um morcego sideral? Talvez eu decida, talvez não. Por enquanto, pra mim, ele é dúvida, mesmo quando crê.
 
Saúde, luz e paz. E vida longa à Pequena.
 
Rute.
 

domingo, 13 de abril de 2014

Você é espectador de teatro?


Estamos em cartaz com o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes – Prêmio SATED nas principais categorias – toda segunda-feira, até 09/06, às 19h, na nossa sede, Rua do Giz, 295, Praia Grande. A Pequena Companhia de Teatro ausentou-se com o espetáculo Pai & Filho durante mais de três anos, por apresentações demandadas em todo o Brasil por projetos do SESI, SESC, FUNARTE etc., que garantiram a trajetória do espetáculo até aqui. No decorrer desses anos recebemos uma constante cobrança de pessoas que nos inquiriam quanto ao retorno das apresentações em São Luís e reclamavam que ultimamente nós só nos apresentávamos fora daqui. De fato, Pai & Filho fez 109 apresentações, delas, somente cinco na ilha. Pensando nisso, invertemos a ordem. Nossos projetos priorizaram inicialmente as temporadas regulares locais e somente depois os deslocamentos. Claro que não podemos reclamar. Desde a estreia, as dezenove récitas de Velhos caem do céu como canivetes tiveram praticamente casa cheia, contudo, agora – desde segunda passada – iniciamos a temporada regular, possibilitando a apreciação do espetáculo para quem quiser, por praticamente três meses. Serão outras nove apresentações. Sendo a lotação de cinquenta lugares, garantimos a fruição gratuita a um espetáculo teatral para 500 espectadores. Tratando-se de uma cidade com um milhão de habitantes só conseguimos disponibilizar acesso a 0,05% da população. É pouco, contudo, é mais do que suficiente. Só resta saber se você estará entre os 99,95% só para poder perguntar sobre novas apresentações. Garanto que o espetáculo fará mais de cem, porém, infelizmente, sei que serão longe daqui. Depois não me venha com grê-grê pra dizer Gregório.

domingo, 30 de março de 2014

Telmah e o enfastiado


Retornei hoje de Mossoró, após assistir a estreia da Viagem aos Campos de Alfenim, espetáculo da querida Cia. A Máscara de Teatro. Como sempre, qualquer movimento que altere minha rotina provoca reflexões, que direi encontrar, prestigiar e conversar com amigos tão queridos. Há algum tempo decidi abandonar a condescendência. Como espectador, não serei mais aquele que pondera, que analisa, que justifica o injustificável. Quero ser arrebatado. Seja pela temática, pela estética, pelo desempenho, pela totalidade, ou até mesmo pela amizade, mas quero ser arrebatado. Quero ser removido do patético lugar que ocupo no mundo, e ser chacoalhado, seja por um beijo heroico, por um chute no traseiro, por um chiste embaraçoso ou pela inesperada despretensão de quem aponta na galinha e acerta o pavão. Desisto de buscar explicações ou elucubrar justificativas para tentar gostar daquilo que não gostei. Como espectador, não quero mais completar o trabalho do artista. Não quero remediar a ausência de potência de uma obra com um argumento intelectualmente preciso que cumpra apenas o papel de amenizar meu constrangimento com o insossado sabor do que vi. Não quero mais conviver com a dificuldade de admitir que não gostei. Não quero mais provar do meu próprio engodo reflexivo para amenizar minha culpa cristã por não ter gostado de um espetáculo. Deixo a razão para a ciência. Pela arte, quero ser arrebatado. Por que estou falando tudo isso? Anteontem, depois de um bom tempo, voltei a me emocionar ao ver um espetáculo. Não sei porque, nem me interessa, mas agradeço.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Abril de 2014



  • Dias 04 e 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes - 9ª Semana do Teatro no Maranhão (espetáculo teatral).
  • Dia 07, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 08, 09 e 10 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
  • Dia 14, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dia 15 - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
  • Dia 21, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 22, 23 e 24 - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
  • Dia 25, às 19h - Leitura dramática (texto e grupo a definir).
  • Dia 28, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
  • Dias 29 e 30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).

IMPORTANTE:
  1. Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro (Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
  2. A lotação está restrita a 50 (cinquenta) lugares.
  3. As atividades são gratuitas.
  4. Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
  5. Ingressos a serem retirados na portaria da sede, no horário de cada atividade (vale para os espetáculos e para as leituras dramáticas).
  6. Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
  7. As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

Como se inscrever?

A Pequena Companhia de Teatro está abrindo inscrições gratuitas para as suas oficinas de formação - uma das ações do projeto Teatralidades - graças ao Prêmio Myriam Muniz de Teatro da Funarte/Minc/Governo Federal, bem como do Programa BNB/BNDES de Cultura.


Serão 3 (três) oficinas, distribuídas em 12 (doze) turmas, em diferentes dias e horários, nos meses de abril, maio e junho, dentro da primeira etapa do projeto Teatralidades. Depois da Copa divulgaremos a segunda etapa.
 
Oficina A: Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (8h)
Oficina B: O quê o meu corpo tem a dizer? (9h)
Oficina C: O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (12h)
 

As inscrições deverão ser feitas, gratuitamente, através do preenchimento de um formulário que se encontra aqui. É importante colocar a disponibilidade de tempo para que os horários das turmas sejam confirmados. Assim, teremos oficinas acontecendo nos 03 (três) turnos, a depender a sua escolha.

Paralelo às oficinas de formação, nesta primeira etapa, também estaremos desenvolvendo: Apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, às segundas-feiras, às 19h e Leituras dramáticas com companhias de teatro residentes em São Luís, na última quinta-feira de cada mês (menos no mês da Copa), às 19h.

Na segunda etapa tem mais!

Qualquer dúvida, entre em contato:
(98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085


quarta-feira, 19 de março de 2014

Segunda-feira


 
Dia 07 de abril  de 2014 começa a temporada regular de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto Teatralidades, contemplado com o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz. Isso. É uma segunda-feira. Durante as próximas dez segundas-feiras você terá a oportunidade de assistir ao novo espetáculo da Pequena Companhia de Teatro. Aproveite. Lembre que Pai & Filho já fez cento e nove apresentações e você ainda não viu. Não vá, depois, se arrepender e ficar nos inquirindo: quando é que vocês vão apresentar Velhos caem do céu como canivetes de novo? Você tem dez chances, até dia 09 de junho. — Ah!, mas eu queria ver Pai & Filho! Espere até o segundo semestre, por enquanto, Velhos Caem do Céu como Canivetes é o que tem, pra segunda. Por que segunda-feira? Porque qualquer dia da semana é uma excelente desculpa para não ir ao teatro. Terça não dá, é ímpar. Quarta é ruim, meio de semana, futebol. Quinta é véspera de fim de semana, contramão para teatro. Sexta é dia de balada. Sábado, rebolada. Domingo, praia. Segunda, ressaca. Como veem, qualquer dia é ruim se o programa for teatro, portanto, por que não na segunda? Detalhe: TODAS AS APRESENTAÇÕES SERÃO GRATUITAS. Bastará chegar na sede da Pequena Companhia de Teatro no dia de cada apresentação e pegar seu ingresso na hora. O espetáculo começará impreterivelmente às 19h. A partir deste projeto voltaremos com a nossa política iniciada com O Acompanhamento de começarmos as apresentações pontualmente. Não haverá tolerância. Por quê? Acreditamos que é uma maneira de contribuir com a formação de uma plateia mais atenta e delicada. O endereço você já sabe: Rua do Giz (Vinte e Oito de Julho), 295, Praia Grande. Então, vamos ao teatro?

domingo, 9 de março de 2014

De volta ao trabalho


Hoje é meu último dia de férias. Foram quatro meses e meio de ócio, com duas pequenas interrupções, uma em dezembro, para as apresentações de Velhos caem do céu como canivetes em Imperatriz, e outra em janeiro, para uma apresentação na Conexão Teatro. A extensão das férias foi diretamente proporcional ao ano de 2013, um ano intenso, violento e duro. Durante as férias voltei a dormir até uma da tarde – qualidade que pensava haver perdido e creditava à idade, quando o verdadeiro agente fora a exaustão –, fizemos, Katia e eu, algumas viagens, escrevi para vocês com certa regularidade, ordenei e faxinei casa, atelier, teatro (ainda me devo o bendito escritório/recepção), atualizei leituras, escrituras; um quadrimestre sabático.
 
Amanhã faremos nossa primeira reunião do ano e as novidades são muitas. O projeto Teatralidades, que recebeu o Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2013, oferece muitas novidades para a rotina da Pequena Companhia de Teatro e, por consequência, para seus aficionados. O projeto prevê oito leituras dramáticas, e convidaremos companhias de teatro locais para realizarem-nas aqui na sede, momento de intercâmbio importante para nós, depois de passarmos os últimos anos um pouco distantes por exigência da agenda externa dos nossos espetáculos e oficinas. Outra atividade que servirá para oxigenar e emaranhar nossas relações artístico-afetivas será os dois seminários previstos – fóruns para discussões sobre teatro de grupo, crítica teatral e formação de plateia. Exercício experimentado em 2006 com O Acompanhamento, a Pequena Companhia voltará com temporada regular dos seus espetáculos na sede, hora de poder ver e rever "Pai & Filho" e "Velhos caem do céu como canivetes", além do espetáculo-solo de Cláudio, ainda por estrear – na sede da Pequena Companhia de Teatro haverá uma apresentação teatral por semana, esteja você ou não. Quer atividades de formação? Também tem. Tanto pelo Teatralidades quanto pelo projeto A ótica da Pequena, patrocinado pelo Programa BNB de Cultura. Ministraremos as oficinas O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia; O quê o meu corpo tem a dizer, e O elemento e a cena.
 
Essas muitas ações têm por objetivo aumentar a integração da Pequena Companhia de Teatro com a sua comunidade, consolidar nossa sede como espaço de aprimoramento teatral e estimular o diálogo entre nós e os outros. Pertencimento. Um emaranhado de atividades para acentuar o enredamento da Pequena Companhia de Teatro com a cidade. Um ano assim exige um descanso preventivo.

sábado, 1 de março de 2014

Uma pergunta


Quem acompanha o nosso blog sabe que frequentemente estamos publicando artigos sobre o Quadro de Antagônicos, que é o principal instrumento da nossa metodologia de trabalho, e sobre o qual tentamos teorizar a mais de uma dezena de anos. Contudo, alguns episódios recentes me trazem à reflexão que desenvolvo hoje e que espero me ajudem a aprofundar. O Prof. Ms. Abimaelson Santos publicou sua tese de mestrado onde um dos exemplos elucidários do seu objeto de estudo é a metodologia supracitada. A revista DRAO, publicada recentemente, contém um artigo de minha autoria que trata da mesma. De férias no Rio dei uma entrevista para a atriz Carlla Amorim para seu pré-projeto de mestrado que visa um aprofundamento mais intenso sobre o Quadro de Antagônicos. Esses três acontecimentos que muito nos honram, e nos levam a acreditar que o nosso fazer contribui para a análise dos caminhos percorridos pela investigação teatral maranhense, também me fazem indagar sobre o alcance e eficiência da teoria na busca de reproduzir uma prática. O que desenvolvo agora tem muito a ver com minha experiência primordial de leitura de livro técnico-teórico, narrada aqui. É possível descrever literalmente uma prática e dar cabo da captura do objeto, seus objetivos, metodologia e problemas? Sempre que li livros técnico-teóricos sem o auxílio de um mediador – mestre, autor, pesquisador, prático etc. – fiquei com a sensação de não chegar nem perto do postulado experimentado por seu criador quando do desenvolvimento de uma teoria a partir de uma experimentação prática. Entendem o que quero dizer? Na verdade, o que faço não é refletir, e sim, perguntar. A escrita pedagógica é capaz de traduzir um gesto, um aceno, um suspiro? Sei que a literatura consegue, e me delicio a cada descrição desenvolvida por cada um dos escritores que construíram meu imaginário literário, entretanto, pergunto: a escritura técnica pode dar cabo da análise objetiva de um objeto carregado de subjetividade como a arte? Continuo a semear indagações. Teoria e prática, eis a questão – uma dentre tantas que perturbam meu juízo.
 
 

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Artistice

 

Uma coisa é ser artista, outra coisa é fazer artistices. Chamo de artistices aquelas ações que tem por objetivo demostrar uma atividade artística, mas, na verdade, não passam de meras jogadas de estilo, palavras de efeito, ações para a construção de um mito pessoal, como se isso fosse possível. São atitudes autopromocionais, estudadas com o mero propósito de chamar a atenção para o agente artístico, o indivíduo operante, a persona. Sabemos que persona deriva do latim persõna e que significa a máscara de ator, o papel atribuído a essa máscara, blábláblá, contudo, em castelhano – possuindo a mesma derivação do latim –, persona quer dizer pessoa. Simples assim. É o que a contemporaneidade tenta fazer: tornar a pessoa a própria obra de arte, e, com isso, reduzir o tema. Imaginem um cabôco entrando em várias casas de pessoas desconhecidas, sem pedir licença, sentando-se, tomando café com elas e saindo, sem dizer palavra – a la Teorema, de Pasolini. Seria massa, não? Não. Seria uma artistice. Pensem no irmão desse cabôco postando um peido e sendo banido do mundo virtual pelo teor fétido do seu conteúdo. Seria uma atitude revolucionária, não? Não. Seria artisticie. E o cunhado do cabôco chacoalhado guizos nos guetos? Artistice. Tem artistice demais circulando por aí. As redes sociais cumprem uma fundamental função para o amadurecimento social do nosso tempo (?), contudo, são também uma fábrica incomensurável de artistices. Não falo de alta e baixa cultura, não falo de produção artística medíocre, não falo do lugar da arte no mundo atual, falo de artistice. De usar o subterfúgio artístico como mero pretexto para aparecer. Utilizar o instrumento artístico para ganhar visibilidade, fama, celebração – mesmo que seja apenas entre os pares de uma mesma corriola. Escrever um romance, montar um espetáculo, compor uma sinfonia, fazer um filme, leva tempo, pesquisa, trabalho. Tirar as calças no meio da rua, não. O mais curioso é que o esvaziamento do discurso contemporâneo apresenta um sem-fim de seguidores fiéis para cada artistice plantada na contramão da arte. Blábláblá. Tudo artistice. O pior é que, de vez em quando, eu faço as minha também. Cada corriola tem as artistices que merece.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O aprisionamento da pesquisa


Sempre que surge um tema, recebo dezenas de nenhuns pedidos para escrever sobre. Desta feita é quanto a mensuração de valor e qualificação da pesquisa teatral realizada fora da universidade. Para o Houaiss pesquisa é um conjunto de atividades que têm por finalidade a descoberta de novos conhecimentos no domínio científico literário, artístico etc. A apropriação indébita dessa palavra por parte da academia gerou uma cruel ditadura que parece preconizar que uma pesquisa só tem valor investigativo se referendada por alguma universidade. Não estou aqui a satanizar a pesquisa acadêmica, até porque ela possui um prestigio que fala per se. O meu bedelho meto-o na defesa das pesquisas realizadas fora da órbita universitária, região que compreende o resto do mundo. A defesa ocorre no intuito de incitar a prática, porque sem o endosso canônico, percebo que artistas depreciam suas investigações ou correm em busca de um aval cientificista – se advogo em causa própria é por não ter visto outros muitos advogando por nós. A maioria dos fazedores teatrais desenvolve pesquisa de campo, ou bibliográfica, ou empírica, ou laboratorial, ou descritiva, ou experimental, mesmo que, às vezes, ela não tenha a menor noção disso; porque arte não é ciência, mesmo que tentem enquadrá-la com tal. Essa vantagem faz da arte a única atividade humana capaz de desconstruir as rígidas estruturas formais e possibilitar um leque de caminhos outros na abordagem de uma investigação. Você pode pesquisar teatro a partir do seu corpo ou pode fazer do desprezo pelo seu corpo um objeto de pesquisa. O que digo é que a liberdade artística pode ser tão fértil quanto a metodologia acadêmica. Digamos que um grupo de teatro trabalhe décadas na busca de conhecimentos que auxiliem os seus membros no domínio de uma técnica que possibilite o acesso a uma representação orgânica, e logre seu objetivo. Essa pesquisa não é mais importante para o teatro que a teorização sobre a influência de Bach no trabalho de Brecht? Respeitar a pesquisa fora da universidade não subtrai valor à pesquisa acadêmica. Apenas reconhece esforços no desenvolvimento de tecnologias teatrais em todos os âmbitos possíveis, e a sala de ensaio é um dos espaços mais fecundos para a pesquisa teatral. Digo, o desenvolvimento de qualquer conhecimento teatral depende da harmonia entre o que se investiga no campus e o que se experimenta no mundo.

 

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma observação


Releio um livro por necessidade. Gosto de livros técnicos. Reassisto a um filme porque alguns me emocionam (o cinema como um todo). Revejo espetáculos teatrais por dois motivos: um deles é assisti-los até compreendê-los. O outro, é se o espaço em que eles são mostrados se altera: caixa cênica, espaço alternativo, rua. Isso, obviamente, quando tenho essa possibilidade.

Nestes dias consegui reassistir a dois espetáculo em São Luís. Um deles por ambos os motivos; o outro, somente por um. Fui surpreendido pelo óbvio: se comparadas, as apresentações, dos mesmos espetáculos, são diferentes.

Recuperei o que Marcelo F. sempre fala nos debates da Pequena Companhia: apresentamos o mesmo espetáculo em qualquer lugar que a gente possa ir. Iluminação, partitura corporal e vocal, cenografia, maquiagem... rigor.

Quando isso não ocorre, a apresentação fica comprometida. Todo o trabalho que a montagem exigiu com o objetivo do público compreender e decodificar os signos, fica nebuloso. 

Recupero aqui o nível de exigência e comprometimento que temos com a nossa arte: Temos a obrigação de assumir um pretenso profissionalismo e apresentar em qualquer espaço inadequado ou com o mesmo espírito só nos apresentarmos em condições adequadas para a fruição de nossa obra?

Como espectador, quero ver e compreender aquilo para o qual a arte fora elaborada. Como artista, quero que meu trabalho seja respeitado.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Entre luz e sombra

Em ritmo de férias acentuam-se os devaneios cotidianos que eu, presunçosamente, costumo catalogar, ora como pequenos ensaios, ora como croniquetas, ora como micro teses. Aproveito a Conexão Teatro para lembrar de uma perturbadora pergunta lançada em uma demonstração técnica que assisti na década passada e que fora oportunizada novamente no evento supracitado: quem são os seus mestres? Sempre tive inveja daqueles que têm a oportunidade de citar e enaltecer seus mestres. Artisticamente, fui nascido e criado em Balsas, no interior do Maranhão, na década de 80. Época sem internet, cidade sem livraria, sem universidade, sem teatro, sem cinema, sem arte – salvo a tímida resistência de manifestações culturais como o Reisado. Não tive mestres de teatro, e tive todos os que precisei. Aprendemos juntos, uns com os outros, o que ninguém sabia. Nesse caso, seriam meus mestres os livros? Se fossem, por consequência, poderia citar seus autores como tais, e eu teria o privilégio de ter mestres como Kantor, Barba, Grotowski, Artaud, mas não. Os ensinamentos que esses livros preconizavam não foram assimilados por mim como esses autores postularam. Eram apenas as tortas e trôpegas leituras que minha ignorância possibilitava fazer, desvirtuando totalmente seus objetos, objetivos e metodologias, contudo, era o que havia. As raras obras chegavam na mala de um primo, nos braços de um amigo, ou transviadas do seu caminho original e tratadas por nós como relíquias contrabandeadas de um mundo dito civilizado, ao qual não tínhamos acesso. Quando chegavam às nossas mãos obras como El Teatro de La Muerte, Hacia um Teatro Pobre, El Teatro y su Doble – todas versões castelhanas – um oásis parecia apresentar-se à nossa frente. Porém, o oásis era seco. Não havia mentor, um mestre que mediasse a leitura facilitando a compreensão dos dizeres. Tudo era um entender sem entender direito. Um estupro à teoria. Crueldade para nós era não haver universidade na cidade. Teatro pobre, para nós, era fazer teatro em uma cidade sem livrarias. Teatro da morte era sonhar em viver de teatro e saber que se morreria de fome. Oficina era a marcenaria do meu pai. Laboratório era o que se levava para a cena, e quem padecia com a experimentação era o espectador. Quando migrei para São Luís, mais de uma década havia caído desde o teatro de colégio, passando pelo teatro amador até receber minha primeira proposta profissional. A merda já estava feita. Eu havia forjado uma maneira de lidar com o teatro, modelado um jeito de encenar, de fazer teatro; um jeito tosco, porém, autônomo – no melhor e pior sentido da palavra. Quando surgiu a oportunidade de conhecer meus novos mestres, eles me foram apresentados como pares, pelo simples fato de eu viver do ofício. Esse fator fizera com que as relações se estabelecessem horizontalmente. Quando digo que o mestre generoso é um eterno aprendiz, é porque a generosidade e humildade dos meus mestres me impediram de tratá-los como tal. Portanto, se eu tivesse que responder à pergunta eu diria, dissimulando certo constrangimento: meus mestres são os meus pares. Com eles aprendi tudo o que sei e aprendo tudo o que não sei. Companheiros, amigos, parceiros, irmão de arte. Atores, pesquisadores, diretores, produtores, dramaturgos, cenógrafos, iluminadores, teatrólogos, figurinistas, críticos, sonoplastas. Foi cada orientação generosa, cada papo interminável, cada imersão filosófica, cada crítica aguda, cada palestra oficina fórum ou acalorado debate que formaram o artista que sou. Sempre vampirizei meus achegados. Chupei cada gota de sangue no afã de suprir esse vazio deixado pela falta de uma formação com mentores. Penso que o vazio permanecerá. Uma eterna sensação de acefalia. Não me orgulho disso. Mas agradeço a cada um dos meus contrafeitos mestres que amenizam essa falta.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Ecos espontâneos continuam caindo...


Forte. Denso. Altamente reflexivo. Texto ótimo. Direção bem pensada. Cenografia (cenário e iluminação) trabalhada na sua essência, de forma que vocês podem apresentar em qualquer tipo de espaço. Atores com talento e técnica. Trabalho de corpo ótimo, mantendo a expressividade durante todo o espetáculo. Todo espetáculo e atores com embasamento teórico sobre o processo e “produto cultural”. Parabéns pela escolha desse tema através de Gabriel. Parabéns pelo trabalho.
 
Thyago Cordeiro
 
 
O texto de Marcelo Flecha no espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes" me remeteu muito ao niilismo de Beckett, ao angustiante discurso "não resta nada a fazer" a este estado de sobreviventes que o homem contemporâneo está fadado como afirma o filósofo Giorgio Agamben, ou também como Pál Perbart diz que "estamos todos reduzidos ao sobrevivencialismo biológico. E estamos todos à mercê da gestão biopolítica, cultuando formas de vida de baixa intensidade, submetidos à mera hipnose, mesmo quando essa anestesia sensorial é travestida de hiper excitação. É a existência de Cyber Zumbis". Um espetáculo para refletir ... (busca o sentido do existir)
 
Cássia Pires
 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Você sabia que...

... o espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes" será apresentado novamente nesta quarta, dia 15/01, às 20h, na sede da Pequena Companhia de Teatro? A apresentação faz parte da programação da Conexão Teatro, promovida pelo bailarino Erivelto Viana, que apresenta uma plataforma para articulação entre fazer e pensar teatro no Maranhão e sua conexão com o Brasil. O projeto ocorre entre os dias 13 e 25 de janeiro, e é o terceiro encontro de artes (festivais, mostras etc.) em que o espetáculo "Velhos caem do céu como canivetes" participa, apesar da sua recente estreia. A entrada é gratuita, os ingressos limitados (50 lugares), e serão distribuídos uma hora antes do início do espetáculo, na sede da Pequena Companhia de Teatro, que fica na Rua do Giz (Vinte Oito de Julho), 295, na Praia Grande, centro de São Luís. A participação interrompe as férias da Pequena Companhia de Teatro, que participa da ação gratuitamente, por conhecer a escassez de recursos do projeto e acreditar na importância deste tipo de iniciativa para o desenvolvimento do fazer teatral maranhense. Como o recesso da Pequena Companhia de Teatro se estenderá até meados de março, esta é uma oportunidade imprevista de ver o espetáculo que recentemente ganhou o V Prêmio SATED-MA de Artes Cênicas, nas categorias de Melhor Ator, Melhor Diretor e Melhor Espetáculo. Confira a fortuna critica do espetáculo aqui e compareça!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Retrospectiva 2013


O ano mal começava e a reforma da não sonhada sede – não tão precisa nem tão grande – intoxicava meu juízo com palavras como empreita, cimento, cal e a nova realidade que esse fato apresentaria ao nosso coletivo. Toda mudança é uma mudança. Mudamos. Estávamos no final de março e o dia 1° de abril se avizinhava com a promessa do início do processo de montagem de Velhos caem do céu como canivetes. Toda promessa é uma mentira enquanto o pagamento não a confirme. No dia da mentira, iniciávamos os ensaios. Promessa salvaguardada por um fato: a Pequena Companhia de Teatro não dependia mais de locar espaços para ensaios e apresentações. A montagem fora o principal desafio do ano e absorvera nossas maiores energias. Pessoalmente, credito a esta montagem nosso maior desafio criativo. Estreava em outubro, depois de seis meses de preparação. São Luís, Caxias, Balsas, Fortaleza dos Nogueiras e Imperatriz formaram o circuito da temporada de estreia estadual, com catorze apresentações e generosas críticas. Felizes por propiciarmos um espaço para a reflexão, avalio que acentuamos nossa condição de agente provocador no cenário artístico regional. Enquanto isso, Pai & Filho alargava sua trajetória circulando pelo interior de São Paulo, garças ao projeto Viagem Teatral, do SESI. A oportunidade de estar um dia no interior de São Paulo, com Pai & Filho, e outro no interior do Maranhão, com Velhos caem do céu como canivetes, aguçou a nossa percepção quanto à condição de miséria plena que assola nosso estado. Toda experiência artística é uma experiência de vida, e vivemos menos quando nos escondemos dentro do nosso gueto. Para mal ou para bem, o teatro é a nossa âncora e a nossa seta. O oxigênio sempre necessário veio com a participação no projeto Troca-troca no Nordeste, experiência de intercambio entre coletivos, promovido pela querida e parceira A Outra Companhia de Teatro, e a participação no 8° FENTEPIRA, na 8ª Aldeia SESC Guajajara de Artes e na Semana de Artes de Balsas. Um 2013 já agônico ainda guardaria uma surpresa: o resultado do Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz nos contemplava com a possibilidade de manter nosso projeto de ocupação da sede para 2014, com o projeto Teatralidades. Temporadas do repertório, oficinas, fóruns e leituras dramáticas serão algumas das atividades oferecidas gratuitamente no ano que vem. Quando tudo parecia no fim, eis que o fim chega.  A Pequena Companhia de Teatro encerrava o ano com Velhos caem do céu como canivetes sendo o principal destaque no V Prêmio SATED-MA de Artes Cênica, com os prêmios de Melhor Ator (Jorge Choairy), Melhor Direção e Melhor Espetáculo. Melhor impossível. Um 2013 para não esquecer. Claro que esqueço de muita coisa. É para isso que escrevo. Para realçar a falta.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Estado de atenção


Como membro da Pequena Companhia de Teatro, estou sempre a matutar sobre as maneiras de exceder as fronteiras da província. A incredulidade gerada pelo fato de nossa Cia. ser sediada no estado mais pobre da federação brasileira se apresenta como uma das principais barreiras para a nacionalização das nossas ações – fator fundamental para a sustentabilidade do nosso grupo. Nos últimos anos participamos de festivais pelo Brasil afora, circulamos através de projetos nacionais, ganhamos prêmios federais, contudo, não estamos integrados ao país; estamos encerrados em um estado de miséria, atraso, descaso, descuido e desatenção. Certamente, ninguém se lembra de nós. A referência não se estabelece, por maior qualidade que você imprima à sua obra. A pergunta mais recorrente será: que aporte pode dar ao nosso projeto uma Cia. vinda de um estado desses? Ouvimos isso com frequência em nossas viagens: da surpresa com a qualidade artística das nossas atividades por sermos do Maranhão. Mas a surpresa não serve, porque vem posterior ao fato. Preconceito? Não, realidade. Sem o estofo de um estado produtor, com políticas culturais eficientes, uma produção contundente e gestores públicos sérios, não será possível se integrar ao Brasil, estar presente no inconsciente coletivo dos atores que comandam os destinos culturais deste país (mote para uma reflexão futura). O curador, o parecerista, o crítico, o conselheiro, o produtor, o selecionador, jamais atribuirá um valor prévio endossado pelo entorno produtivo e criativo do nosso estado; nos olhará sempre
com desconfiança e indagará: do-ma-ra-nhão? Soma-se ao fato, a incapacidade “lobística” dos membros da Pequena Companhia de Teatro. Fora do nosso estado, temos algumas poucas e sinceras amizades que nos auxiliam na oxigenação do nosso fazer, porém, não temos a habilidade necessária para a articulação. Falando em primeira pessoa do singular, escolhi a arte por acreditar que estaria isento de certos males que assolam o mundo, dentre eles, a influência, a negociata, os interesses, a adulação. Ledo engano. Como todos, o meio artístico é habitado por humanos e, como tais, dedicam-se aos conchavos, acertos e toda sorte de idiossincrasias que extrapolam o interesse artístico e que não fazem parte da minha formação. Não é a regra, nem a exceção. Careço desse tipo de habilidade e o meu estomago não digere qualquer situação que não seja espontânea, orgânica ou fortuita. Pois é, um romântico. Em minha defesa posso dizer que comecei fazendo teatro amador nos anos 80, no interior do Maranhão. Apesar de a miséria ser a mesma, o espírito era diferente. As coisas eram simples, bonitas e honestas.  Hoje, creio ser a obra de arte o que menos importa. Não é a exceção, nem a regra.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Os números não vendem

Enquanto aguardamos o encerramento da estreia estadual de Velhos caem do céu como canivetes, que acontecerá nesta terça (18h30 e 20h30) e quarta (19h), em Imperatriz (Teatro Ferreira Gullar), faço um exercício matemático e apresento os números  de Pai & Filho, após o encerrarmos do projeto Viagem Teatral, do SESI, que visitou as cidades de São Bernardo do Campo, Botucatu, Rio Claro, Franca, Marília, Piracicaba e Campinas, no estado de São Paulo.

O espetáculo sustenta 3 anos e 8 meses de trajetória desde sua estreia em abril de 2010. Prêmio FUNARTE de Teatro Myriam Muniz 2009 e 2010, Palco Giratório 2012/SESC e Viagem Teatral 2013/SESI. Foram 109 apresentações e seus respectivos debates para um público de 8.001 pessoas. 56 cidades visitadas de 19 estados brasileiros – MA, PI, CE, RN, PE, AL, BA, AP, PA, TO, MT, ES, RJ, SP, RS, SC, PR, MG, RO. Estados como Alagoas (4 cidades), São Paulo (10 cidades), Santa Catarina (7 cidades) e Rio Grande do Sul (5 cidades) foram percorridos com maior intensidade e profundidade, além do Maranhão (8 cidades), claro. Atenção produtores de plantão: ainda faltam Amazonas, Sergipe, Paraíba, Goiás, Mato Grosso do Sul, Roraima, Acre e o Distrito Federal. Participamos de 30 festivais ou mostras de teatro. Atenção curadores de plantão: ainda faltam um monte! O espetáculo se apresentou em 44 teatros e 17 espaços alternativos e 97 récitas foram gratuitas. Em 2014 Pai & Filho retornará à sua terra natal e fará temporada regular na sede da Pequena Companhia de Teatro para que o espectador ludovicense possa prestigiá-lo – das 109 apresentações, apenas 5 aconteceram em São Luís. As apresentações farão parte da programação do projeto TETRALIDADES, Prêmio Myriam Muniz 2013, que contempla temporada regular do repertório, oficinas, leituras dramáticas, fóruns etc. O que me leva à indagação final: não fosse a trajetória nacional de Pai & Filho, haveriam 8.001 espectadores em São Luís dispostos a assisti-lo ou o espetáculo morreria na estreia? Respondam durante as apresentações que faremos em 2014.




domingo, 1 de dezembro de 2013

Não, querido, não se voa colocando aspas no verbo "voar"

Fotos de Ayrton Valle
Crítica de Igor Nascimento
 
Convém-se que a Tragédia é a derrota do Homem diante da vontade divina. Não se luta contra o que foi preestabelecido pelos “Céus”.  Por mais cruel que o destino possa parecer, o Homem é regido por estas convenções de ordem divina e/ou social e deve respeitá-las. O ato que vai de encontro àquilo que lhe foi conferido pelos deuses ou/e pela sociedade culminará em um terrível fim. Seu caráter transgressor, que parecia sua maior qualidade, será o responsável por sua queda. Mesmo arrependido, continuará caindo até se chocar contra um sólido fundo trágico...
 
Nós, do lado de cá, sentindo terror e piedade, nos purgamos daquele defeito de caráter que parecia tentador em um primeiro momento, pois deu ao Herói toda glória que possuía; mas, depois, tornou-se indigesto, daí a purgação. Essa é a catarse, grosseiramente resumida e efetivamente útil quando se trata de adaptar o sujeito às convenções:
 
 “Aristóteles formulou um poderosíssimo sistema purgatório, cuja finalidade é eliminar tudo que não seja comumente aceito, legalmente aceito, inclusive a revolução, antes que aconteça. O seu Sistema aparece dissimulado na TV, no cine, nos circos e nos teatros. Mas a sua essência não se modifica. Trata-se de frear o indivíduo, de adaptá-lo ao que pré-existe.” (BOAL, 1931).
 
Em Velhos Caem do Céu como Canivetes, da Pequena Companhia de Teatro, temos uma montagem que vai de encontro a todo esse sistema coercitivo que é denunciado por Augusto Boal em Teatro do Oprimido. A Tragédia é posta ao avesso. O que sim vemos é um drama com ares trágicos, ou, uma “antitragédia”. Já explico...


O “Ser Alado” (Jorge Choairy) desce na Terra e encontra o “Ser Humano” (Claúdio Marconcine). Quando as luzes acendem, o cenário é um ambiente caótico, onde tudo parece desconexo. A unidade desses objetos em desordem se dá na movimentação do Ser Humano: sua rotina, aparentemente, é pôr tudo em ordem para, depois, tudo desfazer. Aquele terreno é um produto de suas ações sob a natureza. Não temos uma ligação com a ação-texto. Não se opta por um texto dito com nuances bem definidas. Parece que tudo que se fala é amortizado por esta natureza solidificada pelos elementos dispostos em cena e pelas ações-físicas que fazem com que os personagens interajam com os objetos e entre si. Seus corpos são anormais. O andar, a postura e a voz fogem do corpo cotidiano. O contraponto é este: um corpo fora do padrão executando ações que revelam um determinado padrão (determinado): o Extracotidiano Vs Cotidiano vivendo num espaço mínimo. No primeiro encontro entre os dois personagens esse jogo logo se revela: o estranhamento causado pela insólita visita não se dá pelo encanto, ou pela admiração de ver um ser de asas. É, antes, um “que diabo é isso...”.
 
Ambos são apresentados. Conhecem-se. Interpelam-se. Coabitam. Convivem. O Ser Alado tem uma missão: fazer com que o Ser Humano acredite em algo para além daquele plano terreno (questão que fica em aberto), mas, em suma, significa que ele quer persuadir o homem a se mover, evoluir, a sair dali, daquele jogo repetitivo. O Ser Humano, contudo, é imóvel. Ele se atém às necessidades da vida. Luta, mesmo que de forma parcimoniosa, contra fome e contra a sede. Ao mesmo tempo, ele cria engenhocas para passar o tempo, inventando outras necessidades - necessidades fabricadas - como a de ficar tonto através de um pequeno aparelho feito com a peça central de um ventilador de teto. O Ser Alado tenta se adaptar, construir uma rotina dentro daquele plano, enquanto “convence”, inutilmente o Ser Humano a se mover. Seu gesto, que antes se baseava na ação de mexer os ombros, repelindo as asas, acaba ganhando os ares daquela rotina. Ele, inclusive, testa a máquina de ficar tonto e se mostra curioso em relação às engenhocas produzidas pelo Outro, como o Manifesto à Eletricidade. Há uma mudança em seu corpo e a dramaturgia do ator ganha um significado na trama e conta algo também. 
 
Os dois planos: o que está dentro (a realidade) e o que está fora (o além) se confrontam através dos corpos dos dois atores encerrados naquele universo retratado, cenograficamente, com materiais retirados do lixo.
 
Ao final, o Ser Alado desiste. Voltaria para o lugar de onde veio, mas eis que vem o golpe da outra dramaturgia, aquela, do velho dramaturgo, aqui, Marcelo Flecha: o Ser Humano mata o Ser Alado com uma cacetada! O elemento textual decisivo se revela através de uma didascalia, provavelmente: Ser Humano defere uma boa e segura bordoada no Ser Alado, matando-o (sic). A grande catástrofe é um ato físico. Novamente o corpo e o movimento. Aqui, finalmente, o orgânico, o indeterminado, o transcendente se junta ao material, ao concreto, ao plano terreno prático, rotineiro, que fará do Ser Alado a refeição, a galinha do Almoço - o resto é para Janta.


Onde está a tragédia? Ou a “antitragédia”, como disse antes?  Como um Sistema Coercitivo, como alude Augusto Boal, a catarse visa purgar o homem de algum defeito que não é adequado para o Sistema. Normalmente, representado por um oráculo ou pelos deuses, esse Sistema se apresenta com ares superiores, com as pompas do Além e do Supremo. Em Velhos Caem do Céu como Canivetes, essa lógica se inverte. Lá, a realidade pré-estabelecida é a miséria, é a fome, é a vida do homem presa a uma rotina que gira em torno do material, do imediato, do mecânico.  Não há um “fora”, um “macrocosmo”, aquilo é o tudo. Nesse novo sistema entra o Ser Alado pretendendo a mudança. As asas significam a possibilidade do livre deslocamento. Não há revolução sem movimento. E é aqui que o Ser Alado sofre o grande golpe trágico, não dado pelos deuses ou pelo Estado, mas por um simples mortal e cidadão comum. O fim: a morte. As luzes: vermelhas. O que era para ser purgação se torna refluxo. Volta para as tripas, ou seja, para o chão do corpo, para o jogo maçante das necessidades diárias.
 
O Destino é, nesse caso, a sobrevivência. Na tragédia, tudo volta a ser como antes através do terror e da piedade que sentimos pelo herói - basta não seguirmos o seu exemplo e não achar precioso o seu defeito (Hamartia), afora isso, tudo está perfeito. No quadro dramático “antitrágico” de Velhos Caem do Chão como Canivetes tudo volta a ser como era antes, ou seja: terror e piedade; pois, apesar da refeição garantida, outros dias de míngua e desumanidade hão de continuar. Sentimos terror da miséria e piedade daqueles que vivem nessas situações, tais sentimentos estão em nosso cotidiano - basta assistir aos jornais e ver que embrulho isso dá. O que há de ser “purgado” aqui é a nossa ingênua crença de que isso, um dia, pode ser mudado, ou seja, que um dia a pobreza ganhará asas e sairá voando de nossa realidade.
 
“É pensando que a porta é alta que batemos nossa cabeça na parede”

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Um outra experiência

Bate-papo na sede d'A Outra... (SSA-BA)

Faço parte da Pequena Companhia de Teatro há 4-5 anos. Preconizamos o Quadro de Antagônicos como ferramenta de preparação para o ator, e é ele que norteia a pesquisa que fazemos. Somos um grupo de teatro que pesquisa, e os espetáculos são o resultado disso.

Sentencio que, gente de teatro se conhece, se entende, se reencontra, se celebra e se constrói, juntos, a identidade do teatro na contemporaneidade; múltiplos teatros, formas de fazer, maneiras de articular. Quando nos profissionalizamos, acabamos por nos distanciar de algumas práticas por questões financeiras e de agenda. Articulação, debates e partilhas deixaram de existir em detrimento de montagens, de circulação, de apresentações, do ofício. Nossas ações se colam e se plastificam através de editais – públicos ou privados. Se fugirmos disso, seremos sentenciados ao fracasso, à mudez dos palcos, à surdez das plateias. Teatro de grupo, hoje, existe pelo querer fazer e pela busca incessante de recursos que esses editais disponibilizam.

Assim, tivemos a oportunidade de conhecer A Outra Companhia de Teatro a ponto de criar vínculos, estreitar relações. Crescemos e produzimos conhecimento a partir do diálogo. Em Salvador não foi diferente. A oportunidade de reencontro para compartilhar o nosso fazer, conjugado ao fazer dos outros, recupera o entendimento que tenho do corpo formalizado que temos a partir dos nossos processos. É nessa perspectiva que o corpo precisa de outras alternativas e possibilidades para se desconstruir e se ressignificar permanentemente. O corpo deve se arriscar a encontrar outros percursos além do que segue confiante.

O projeto aprovado pela A Outra Companhia de Teatro, o Troca-troca Nordeste, através do Programa BNB/BNDES de Cultura, possibilitou a privilegiados grupos de teatro sediados na região Nordeste do Brasil um espaço de mostragem de suas técnicas/formas e modos de fazer; partilha de processos de organização; formação em outros procedimentos que não os habituais utilizados pelas companhias/grupos de teatro participantes.

Sou daqueles que, movidos pela urgência das coisas, contamina e deixa-se contaminar. É que a entrega é pré-requisito para a aceitação, compreensão e diálogo com outros fazeres e outros pares. Secularmente estamos ilhados pelo fracasso das conquistas; é que no Maranhão a riqueza é para poucos e as desventuras para os que sobram – e esses são muitos. Há um exílio forçado pela conjuntura político-financeira que é quebrada com ações de generosidade e troca entre gentes que se afinam – um exemplo é a proposta d’A Outra...

Um discurso recorrente é que as dificuldades encontradas para a manutenção das atividades de um grupo são semelhantes quer de um existente em São Paulo, quer de um das Alagoas. Não deixa de ser verdade, mas as maneiras de driblar essas armadilhas são inúmeras e fenomenalmente diferentes. São esses diálogos que dão lampejos de sensatez para situações típicas de um grupo de teatro que ama o que se faz e busca imprimir sua identidade nos espetáculos que monta e apresenta. Mas, objetivamente, a troca, a compra, a observação, o diálogo, ele é referenciado comumente quando se tem um foco específico para tal, e aqui não pertine em se tratando da Pequena Companhia de Teatro, mas sim do ator que se fez presente. A escolha de meu nome pelos meus pares (Katia Lopes, Jorge Choairy e Marcelo Flecha) se deu pela minha afetiva aproximação com a mímica corporal dramática, de Etienne Decroux, que dialoga com a proposta de formação da etapa na qual eu participaria (biomecânica de Meyerhold), e também por estar em processo de pesquisa para a montagem de um espetáculo-solo para as ruas.

Minha compreensão acerca das influências sofridas são mais amplificadas, e assim, tudo o que fazemos ou deixamos de fazer influi e influencia nas nossas vidas e na vida da comunidade. Presença ou ausência repercutem, sempre. Enquanto ator, quando em processo, as informações e transformações pela qual o corpo passou, vai reverberar na composição, na cena. O senso comum não conseguirá identificar, mas a plateia especializada, certamente o fará. Conseguirá perceber na ação da personagem, a formação do ator, as influências que sofreu durante sua jornada, que não se esgota, mesmo com a chegada da “indesejada das gentes”.

Meu corpo recupera o que minha memória acata. Quando não, os espasmos incompreensíveis podem dar sustentação a uma ação cênica. Não sei, mas está aí; apareceu, mas não sei sua gênese – e funciona. O que fica tem autoridade para tal. O que quer ir, a gente deixa o vento levar. Assim são as coisas.

domingo, 24 de novembro de 2013

Velhos caem, nós também.


Plateia em Balsas
A proposta de interiorização das ações da Pequena Companhia de Teatro no estado do Maranhão existe desde sua origem, e sempre representou um posicionamento político. De 2005 para cá, O Acompanhamento, Entre Laços, Pai & Filho, Velhos caem do céu como canivetes, e ainda, Medéia e Deus Danado – espetáculos da eterna parceira, Cia A Máscara de Teatro –, tiveram passagem por cidades do interior, assim como oficinas, performances literárias, lançamento de livros, participação em fóruns, palestras, debates, organização de mostras de teatro; tudo com a convicção de estar contribuindo de alguma maneira para o desenvolvimento sociopolítico-cultural do estado mais pobre da federação brasileira, e sensibilizando o poder publico municipal para a importância dessas ações. Balsas, Imperatriz, Bacabal, Caxias, Santa Inês, Riachão, São José de Ribamar, Timon, São Bento, Fortaleza dos Nogueiras, Itapecuru-mirim. Mais de cinquenta apresentações de espetáculos, todas gratuitas (não podemos pretender que comunidades que não te acesso a teatro tenham a sensibilidade e predisposição de pagar por ele nas pouquíssimas vezes em que a oportunidade aparece), e seus respectivos debates. e, em todos, o reconhecimento e a cobrança dos espectadores quanto à importância dessas iniciativas.
 
Oficina em Caxias
Nessa trajetória conseguimos sensibilizar o poder publico municipal? Não. Todos os projetos de circulação realizados pela Pequena Companhia de Teatro foram patrocinados pelo Governo Federal ou pelo SESC, com o apoio cultural local de pizzarias, amigos, universidades, parentes, colégios, restaurantes, ou a intervenção de amigos-secretários de cultura/presidentes de fundações. Nas poucas ocasiões em que as prefeituras se sensibilizaram com nossas ações, o apoio cultural se restringiu a uma hospedagem aqui, uma refeição acolá, mas jamais qualquer prefeitura maranhense desembolsou um centavo com qualquer despesa mais significativa. Depois de oito anos de ações ininterruptas, nunca recebemos por parte de nenhuma prefeitura o convite espontâneo para a realização de algum tipo de atividade cultural que demandasse do município o desembolso de recursos para pagamento de cachê, transporte de cenário e equipe, compra de livros etc. – nosso último projeto já distribuiu gratuitamente mais de cinquenta livros. O que sim vimos foi o quanto as prefeituras buscam capitalizar politicamente nossas ações. Nosso único retorno vem sempre do público. Nos depoimentos constantes, cortantes e emocionados dos espectadores que reforçam a importância dessas ações. Será suficiente? Com um diagnóstico desses fica muito difícil convencer os pares quanto à efetiva necessidade da interiorização, porque o reconhecimento merecido vem de quem frui, mas nunca vem de quem deveria ajudar a pagar a conta com políticas públicas culturais efetivas que desvinculassem suas ações do óbvio e árido calendário carnaval-São João-verão-pátria-natal-férias. Sou do interior do estado. Depois de vinte e tantos anos de labuta, nada mudou. O público merece nosso esforço, só não sei se a ranhetice da velhice que se assoma respeitará nossa vontade.
 
Debate em Fortaleza dos Nogueiras
 
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Em cena


Li, dia desses, uma matéria que tratava sobre um bate-boca na plateia de uma apresentação teatral do Marco Nanini. Noutro, vi uma tratando acerca de celulares atendidos em plateias de teatro.

Ator não é mentiroso e as pessoas confundem. Manifestação artística é uma coisa. Vida real é outra. Lembro-me de dois casos, sendo que um eu presenciei e outro ouvi dizer: dois atores pararam o espetáculo. Um deles desistiu da apresentação não se sentindo capaz de continuar. O outro, para calar a boca dos que insistentemente atrapalhavam a cena. 

Na Pequena Companhia de Teatro já tivemos duas situações em que o corpo reagiu às demandas da cena: em Pai & Filho, a porta caiu sobre mim por causa da ruptura parcial dos ligamentos do joelho direito no aquecimento (o diagnóstico só veio posteriormente), e a perfuração da membrana que protege o tímpano da orelha esquerda de Jorge C. em Velhos Caem do Céu como Canivetes. 

A partir dessa última, eu e Jorge C. começamos a brincar o que faria com que a gente interrompesse a apresentação, o que seria profissional ou suicídio diante de determinadas situações, como por exemplo, jogarem um tomate sobre nossas cabeças, falta de energia elétrica...

Esse limite não é determinado pelos cânones. Assim, imagino que o ator seja sacrificado por tomar a iniciativa da contenda entre o planejado e o imprevisto. Depois, vira história.