sábado, 22 de novembro de 2014

Aniversário fora de época


Em 2015 a Pequena Companhia de Teatro completa dez anos de existência. Na verdade, em 2015 e 2016. Somos um grupo que tem o privilégio de festejar durante um biênio. Explico: em 2005 estreou o espetáculo “O Acompanhamento”, montagem basilar para a constituição do nosso grupo. Em 2006 a companhia se estabeleceu legalmente, como pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Para ser mais exata, nossa comemoração se estenderia do dia 29/11/2015, dia da estreia do espetáculo, até o dia 11/06/2016, quando recebemos a certidão de pessoa jurídica, depois de uma via-crúcis burocrática, enfadonha e onerosa. De lá para cá foram quatro espetáculos (O acompanhamento, Entre laços, Pai & Filho e Velhos caem do céu como canivetes), duas coproduções com a Cia. A Máscara de Teatro (Medeia e Deus Danado) e diversas outras atividades artísticas (leituras dramáticas, feiras de livro, debates, performances, autos, palestras, lançamento de livro, oficinas etc.). Inicialmente vamos comemorar refletindo. Resolvemos estabelecer um fórum de reflexões entre os quatro para analisar nossa trajetória até aqui. A ideia é pensar o todo e o uno. Bater um papo semanal, sem data para terminar, sobre o que éramos, o que nos tornamos, e no que não queremos nos transformar. Discutir sem pressão prática de agenda, projetos, pautas, editais, nada disso, apenas refletir. Estamos dispostos a encarar os próximos dez anos? Para que serviram os que passaram? Quais são as mudanças necessárias? O que não pode mudar? Cabe resistir? Cabe debater? Cabe mais um? Cabedal? Cabide? Com quantos sonhos se constrói uma realidade? Com quantos pesadelos se destrói um sonho? Com quantos amigos se impõe uma vigília? E a boa, velha, repetida, e principal pergunta: com quantos paus se faz uma canoa? As respostas aparecerão aqui, parcimoniosamente. Quanto à última, nem um mestre canoeiro.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Novo eco


Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo de excessos e de difícil assimilação
Por Alexandre Mate

Drummond manifesta em seu belo poema O Lutador que haveria palavras dentro dele buscando canal: prontas para explodir. Criadores teatrais — como vulcões em estados próximos à erupção —, aliado às palavras, teriam, além destas, imagens, deslocamentos e desenhos no espaço cênico, efeitos de diversas naturezas, músicas e sonoridades em momentos distintos... A linguagem teatral é complexa e a eclosão de seu fenômeno ocorre durante o espetáculo. Antes e depois disso, o que se tem são idealizações e tentativas de explicitação.

A Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA), e cujo trabalho anterior foi o pungente Pai e Filho, apresentou seu último trabalho no Teatro do Sesi, de Piracicaba (SP), durante a nona edição do Fentepira. A obra, toma como referência um conto de Gabriel García Márquez que, de modo bastante sucinto, apresenta os diálogos entre um anjo “caído” e um homem apartado do mundo. Tal situação, característica dos embates e choques entre seres de contextos absolutamente distintos, tem como cenário uma paisagem devastada (repleta de lixo reaproveitado e transformado em “obras de arte”) e lotada de objetos heteróclitos.

Feito máquinas, as duas personagens falam sem pausa e de modo ininterrupto. Sem pausa, e como condenado ao movimento constante, o ser que habita a paisagem catastrófica, parece um descendente de Sísifo (ele não descansa nunca, e parece condenado aos movimentos sem sentido).

Sem tempo para a reflexão do espectador, os efeitos se somam e vêm aos borbotões. Gilberto Gil lembra em versos de música famosa algo como em um copo vazio haveria uma plenitude de ar. Velhos Caem... precisaria, talvez, a partir de tal preceito, conferir tempo para que o público (razão de ser do espetáculo) pudesse decodificar a pluralidade de tantos símbolos.

Portanto, pausas e ralentamentos quanto ao discurso excessivo (texto, adereços, movimentações...) tenderiam a ajudar na fruição de pequenas belezas não percebidas pelo excesso.

*Velhos Caem do Céu Como Canivetes foi apresentado no domingo, dentro da mostra oficial do 9º Fentepira

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Teatro = Coletivo

Uma companhia de teatro é uma estrutura orgânica. É argilosa, pulsa, se modifica, vive. Por muito tempo acreditei no contrário, e apostei todas as minhas fichas na rigidez das pedras. Hoje entendo que um organismo precisa respirar, e tudo o que dele emana é frutífero, sempre e quando seus fundamentos sejam respeitados. A pulsação de uma companhia está diretamente relacionada à pulsação dos seus membros, e suas conquistas tem a mesma relação progressiva. No final da década de oitenta e início dos noventa – quando morava no interior do estado – vivi algumas das experiências mais significativas da minha vida no que se refere à vida em coletivo. Na época, sonhávamos juntos exatamente aquilo que conquistamos hoje, individualmente. De lá para cá, algo se perdeu. O indivíduo se sobrepôs ao todo, e estamos repletos de coletivos que reúnem indivíduos ilhados, entupidos de companhias de um homem só, entulhados de grupos que não se agrupam, de companhias sem unidade no discurso, de artistas migratórios que saltam de coletivo em coletivo, de grupos que são apenas um selo, de CNPJs de aluguel – tudo com o argumento de preservar o indivíduo. Esses defensores esquecem que o neoliberalismo dos anos noventa se encarregou, não só de preservar, mas de impregnar o individualismo em toda a sociedade. Os grupos que resistem dentro de padrões mínimos de convívio coletivo, de confronto dialético, de efetiva socialização, foram, são e serão o esteio do teatro brasileiro. Quando aqui me contradigo, ao defender a argilosidade necessária para a existência de um grupo de teatro, e ao criticar a pluralidade pulsante nos formatos dos coletivos contemporâneos, é para compartir com o leitor meu questionamento atual, e a reflexão que dele provém. O ato teatral, de fato, na sua essência, pode acontecer na solidão do indivíduo, mesmo que pareça acompanhado?

domingo, 19 de outubro de 2014

Marginal


Margem. Sempre estive à margem. Minha opção marginal — sobre o que eu iria fazer para o resto da vida, a forma como iria me relacionar socialmente, as opções de pensamento — sempre me conduziram para a margem. Teatro, reflexão, discrição, nunca serão centrais no mundo ocidental, portanto, a vida tem me guiado para a margem, de onde se enxerga o mundo de outra forma. Fora do centro continuo andando, e a margem me guia para fora da periferia. O teatro, per se, já é marginal. Na sociedade contemporânea, entre as artes, jamais poderíamos colocá-lo no centro. Música e cinema são as linguagens que ocupam a centralidade do interesse popular. Nossa opção de teatro acentua essa marginalidade, quando acredita nessa linguagem como instrumento de reflexão e transformação social. Por isso, quando ouço — Matem o marginal!, sinto-me na guilhotina. Quando fundamos a Pequena Companhia de Teatro, sabíamos do lugar periférico que ocuparíamos no interesse da sociedade, e nossas ações não buscaram atingir o centro, e sim, trazer esse espectador para experimentar o olhar periférico; um olhar diferente do olhar que costuma ser centralizado no teatro: a diversão, o entretenimento, a glamourização, o riso fácil, a pasteurização do pensamento, e os diversos clichês temáticos. É o que somos. Marginais. Misturo o número da 1ª pessoa propositadamente, porque o que fazemos reflete no que penso, e o que penso encontra eco no que fazemos. Fragmento o discurso desta postagem propositivamente, para gerar no leitor um incômodo marginal. Um convite a sair do óbvio, à mudança do olhar, a romper com a norma, a sair da zona de conforto. Uma música dissonante, um espetáculo hermético, um livro de três mil páginas, um filme em preto e branco, arrisque-se. Venha para a margem. Seja marginal.
 
P.S.: A propósito, amanhã tem Pai & Filho. Última apresentação antes da Mostra SESC Cariri de Cultura. Sua chance de iniciar o exercício.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Você sabia que...


... o espetáculo Velhos caem do céu como canivete foi selecionado para o 9º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba? A curadoria ficou a cargo do ator e diretor Roberto Rosa, que selecionou o espetáculo maranhense dentre as 346 peças inscritas, de 89 cidades e 17 estados. A apresentação acontecerá no dia 22/11, no Teatro Municipal de Piracicaba. Para ver detalhes da programação do FENTEPIRA, clique aqui. Recentemente o espetáculo Pai & Filho foi confirmado na XVI  Mostra SESC Cariri de Cultura. As datas das apresentações serão no dia 11/11, as 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, na cidade de Juazeiro do Norte, e no dia 12/11, as 21h, no Teatro Adalberto Vamozi-Sesc Crato.
 
 

domingo, 5 de outubro de 2014

R.S.V.P.

A expectativa
A nova sede da Pequena Companhia de Teatro forjou uma prática que venho exercitando desde o ano passado, buscando atrair espectadores para as temporadas dos nossos espetáculos. Trata-se de um convite personalizado que faço, via caixa de diálogo, em diversas redes sociais, provocando o espectador a vir nos ver. O fato seria banal, não fosse o comentário da Cris Campos, provocador desta reflexão. Segundo ela, essa minha indelicada atitude, “foi fundamental, não para eu ir, mas para ir diferente”, e completa, “quando a gente gosta muito de algo que fizemos, que consideramos bacana, interessante de ser compartilhado, a gente faz questão de que seja de fato compartilhado, né? Não é só um flyer, é um convite pessoal, semanal e desejoso. E isso é muito bom. Para mim, me trouxe a expetativa de ir, de trocar, de absorver, de ir desarmada para receber o que o universo, daquele instante, queria que eu vivesse”. Quando digo “indelicada atitude”, é porque, as mensagens que envio, normalmente têm um tom provocativo, ora ácido, ora irônico, ora jocoso, brincando com a ideia de que você curte teatro, mas não frequenta. Naturalmente, meu atrevimento fazia com que eu imaginasse certo constrangimento do destinatário da missiva, um espectador sendo cobrando no mais íntimo de todos os meios modernos: a mensagem in box. O que eu não imaginava era que, alguns espectadores, iriam perceber o subtexto que ali deixo, e que a Cris, delicadamente, percebeu: a pessoalidade. Sim, o que eu digo em cada uma dessas mensagens é da importância pessoal e intransferível de que você veja o espetáculo. Do importante que é, para mim, que você veja este ou aquele espetáculo. A pessoalidade aqui, busca a quebra desse espectador genérico, anônimo, insípido, e procura percebê-lo como ser individual, pessoal, possuidor de uma opinião tão diversa e particular que faz com que a cor seja vista descolorida pelo espectador ao lado. Se minhas mensagens não chegam mais, é porque desisti de você, ou porque o constrangimento agora é meu. Se nunca chegaram, é porque minha educação é inversamente proporcional à nossa intimidade. Você deve se perguntar por que ultimamente tenho insistindo tanto no tema espectador. Acontece que sou de um tempo e de um espaço onde o espectador não existia. Fazíamos teatro para ninguém, literalmente. Hoje, esse precioso indivíduo, se apresenta para o diálogo, e, como não tenho muito traquejo para lidar com ele, vou construindo essa conversa com a sensibilidade de um cavalo. Por tanto, se receber uma mensagem, sinta-se acariciado, mesmo que seja com um coice.
 
O resultado
P.S.: Amanhã tem Pai & Filho, não vai ficar esperando minha mensagem. Vai?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Teatro é espaço de encontro


Quem vai assistir a um espetáculo teatral sempre tem a certeza de que vai encontrar pessoas, tanto na plateia quanto no palco. Conhecidos e desconhecidos. Pode-se sentar na frente, atrás, lateralmente, no chão, ficar de pé. Em cada local e situação, perspectivas diferentes do encontro: manter-se à distância ou aproximar-se?

Mesmo plateias diferentes, são plateias de teatro, e sempre se reencontram. Fazedores teatrais também são assim: se fazem teatro, se encontram, se reencontram. De uma forma que não sei ao certo, se solidarizam nas dificuldades e se confraternizam nas conquistas.

A dinâmica da vida de cada um faz com que as escolhas interfiram nesses encontros, de diferentes modos. Aos fazedores, a conquista dos espaços. A circulação não só oportuniza o conhecimento de outros espaços como amplia as oportunidades de encontro. Não estamos imunes às interferências do meio e das gentes. O que fica, fica. A partir dai, os reencontros são inevitáveis: sensação de amparo, de aconchego. Uma felicidade descomunal em rever pessoas que continuam a fazer da sua arte seu ofício, apesar dos atropelos. Como que por uma reflexo no espelho conseguíssemos ver neles também a nossa vida. Percebê-los em cena faz-nos ainda vivos. 

Gosto de me reencontrar nos espaços num recorte temporal diverso. As sensações sempre diferem numa comparação mesmo que grosseira.

Numa época eu me sentia meio nômade, mas consegui identificar alguns espaços nos quais me sentia pertencente. Quando os revisito, encho-me de esperanças. Não sou de todo ruim. Faço teatro.


domingo, 21 de setembro de 2014

Leve e ligeiro, meu balanço do FNT.


O Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga é daqueles eventos em que você se sente em casa. A cidade, os organizadores, o vinho, o papo, o frio. Uma semana subindo e descendo as escadas do mosteiro dos capuchinhos para ver e fazer teatro. As análises da Mostra Nordeste ficaram a cargo de Luis Alonso Aude, Wilson Coêlho e Makarios Maia Barbosa – provocadores contumazes. O espetáculo Velhos caem do céu como canivetes conseguiu se apertar no aconchegante Teatrinho Rachel de Queiroz, e tivemos uma apresentação integra, para um público que entupiu a casa, e riu muito além da conta colhida nas vinte e oito apresentações anteriores. A ovação final é suspeita, porque o público de Guaramiranga é sempre generoso com os espetáculos que por lá passam. Contudo, nos encheu de alegria e satisfação, pois confirmamos que o diálogo entre espetáculo e plateia também se estabelece fora do Maranhão. O debate aconteceu logo após a apresentação, porque Jorge e Cláudio retornariam na manhã seguinte, horário do debate. O fato, não permitindo que os debatedores tivessem a chance de se debruçar, como vinha acontecendo anteriormente, gerou comentários espontâneos e virginais. Vivências: o encontro com Abimaelsom, Dane, Pryscilla, Henrique, Silmara, Bruna, Rogério, Carlos; conhecer Quitéria, Adriano, Tiago, Vanéssia, Felipe, Astier; assistir a Fogo, Jacy e BR Trans; rir com a parada de rua; comer chocolate. Sou um homem de teatro, gosto disso. Gosto de imaginar que algo no mundo se mexe quando artistas se reúnem. Pretensão? Se vocês vissem e ouvissem o que eu vi e ouvi durante essa semana, tenho certeza que pensariam o mesmo.

Gabo no palco


Especial para o Jornal da Paraíba
Por Tiago Germano
13/09/2014

Na quinta-feira, o JORNAL DA PARAÍBA assistiu à montagem de Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís do Maranhão. O espetáculo tem direção de Marcelo Flecha e é livremente adaptado do conto ‘Um senhor muito velho com umas asas enormes’, de Gabriel García Márquez, escritor que morreu no mês de abril.

Na peça, um misterioso Ser Alado cai no quintal de um Ser Humano, um catador de lixo que se instrui lendo os livros que encontra entre os resíduos deixados pelas outras pessoas. Impressiona a atuação de Jorge Choairy e sobretudo de Cláudio Marconcine, que se transfigura no papel deste Ser Humano, um homem que abandona as artes plásticas e vive na miséria, cercado pelas invenções engenhosamente inúteis que passa a produzir.

O desempenho corporal dos atores é fruto de uma metodologia desenvolvida pelo grupo chamada de Quadro de Antagônicos, no qual a oposição física entre os atores vai definindo, lendo e regendo as partituras físicas de cada um. O cenário, produzido artesanalmente, pelos próprios integrantes da companhia, é dominado por uma torre erguida no centro por latinhas do Guaraná Jesus.

Astier Basílio
Especial para o Correio da Paraíba
13/09/2014

 
Um ser humano confinado em um lugar ermo, revirando o lixo. Despenca em seu quintal um ser alado. É em torno deste episódio, e de seus desdobramentos, que se desenvolve o espetáculo Velhos Caem do Céu como Canivetes, montagem da Pequena Companhia de Teatro, do Maranhão, apresentada quinta no Festival Nordestino de Teatro, em Guaramiranga. No cenário, uma imensa torre composta por latinhas de guaraná Jesus foi um dos pontos de discussão entre os debatedores. “Eu não consigo ver o lixo aí tal o nível de organização da cena”, pontuou Makários Maia, encenador do Rio Grande do Norte e convidado como debatedor do evento. Numa discussão filosófica, o ser humano e o ser alado falam sobre fé. “Você não coloca a dúvida em cena, mas a descrença”, avaliou Makários. “É um espetáculo de perspectiva niilista”, observou Wilson Coelho, tradutor, diretor e dramaturgo do Espírito Santo, também integrante da banca de debatedores. Além do embate sobre a existência, numa encenação que conciliou tanto o corpo dos atores, trazendo-os dilatados, a montagem, numa composição repleta de objetos que mais parecem instalações, assume uma exuberância e a linguagem também é evidenciada como falência da comunicação – a torre de latinhas é evocada como um símbolo da Torre de Babel, de onde decorreu o castigo divino na multiplicação das línguas para impossibilitar, pela incomunicação, a chegada dos humanos aos céus.


domingo, 7 de setembro de 2014

Espectando o espectador

Foto de André Lucap
O espectador da Pequena Companhia de Teatro passa por uma experiência diferente de qualquer outro espectador de teatro. Este que vos escreve, tem por prática, acompanhar o desempenho do espectador enquanto a sessão acontece. Espécie de voyeur de luxo, essa mania acentuou-se a partir do espetáculo O Acompanhamento, e me acompanha até hoje. Sim, eu vejo cada cochilo, riso, suspiro, bocejo, choro ou ronco seu. Sentiu-se constrangido? Acontece que o teatro tem transgredido a relação entre palco e plateia, e isso acarreta uma presença muito mais efetiva do espectador, exigindo dele uma prontidão maior. Sim, assim como o espectador tem se tornado cada vez mais exigente com o artista, o artista tem se tornado cada vez mais exigente com o espectador, para que o diálogo se fortaleça, e favoreça a construção de um teatro mais inteiro, dinâmico e contracultural. Meu prazer está em espectar você, e avaliar de que maneira esses atores (você e o espetáculo) dialogam e constroem a significação do que a companhia propõe para reflexão. Não, não tem nada a ver com um modismo de público participativo, anônimo em cima do palco ou personagens invadindo a plateia, apenas eu, dissimuladamente, vendo você. Claro que você não percebe, porque as montagens sempre seguem uma configuração que possibilite a prática sem que seu incômodo aconteça, contudo, eu estou lá, observando... Analisando... Avaliando... Sentiu um frio na barriga? É isso mesmo. Saiba que a exigência, aqui, não está apenas para o ator. No nosso caso, o encontro teatral também serve para refletir sobre o espectador – esse cidadão, que é um ser sócio-político-cultural sobremodo transformador (ou não) do seu entorno. Você, na sua cadeira, é tão importante quanto o ator que representa, por isso, a sua responsabilidade é tão integradora quanto a do artista que você observa. Nossa exigência avança na busca do diálogo com o espectador disposto, atento, presente, pensante. Quer pipoca e refrigerante? Vá a uma lanchonete. Quer sacudir a cabeça? Vá a uma boate. Quer gritar? Vá a um parque de diversões. Quer acreditar na torpe utopia de mudar o mundo? As portas da Pequena Companhia de Teatro estarão sempre abertas. Exigentes, porém, abertas.

domingo, 31 de agosto de 2014

Arte & Mercado


Como estabelecer uma relação de comprometimento com a atividade artística e seu foco de reflexão, sem deixar que interesses econômicos comprometam seus resultados estéticos e dialéticos? O exercício artístico profissional transita por campos imponderados que vão além da arte, e a necessidade de extrair desse exercício o sustento para viver, pode ser uma armadilha ardilosamente perigosa. Para o artista profissional, se faz necessário um policiamento permanente, para que mudanças de rumo na carreira, e na forma e conteúdo das suas obras, não sejam justificadas por babéis argumentativas, servindo apenas para dissimular um notório descomprometimento com a sua arte, em prol do mercado. Nesse caso – se percebida a influência econômica no conteúdo programático do seu processo, na organicidade da sua prática, no resultado da sua obra – recomenda-se o desvinculo profissional, para não comprometer seus resultados artísticos. A mudança de fonte de renda, buscando a independência financeira através de outras atividades, pode proteger o artista, desprendendo-o da falha argumentação da necessidade de se adequar ao mercado, pois, muitas manifestações artísticas, são impassíveis de adequação – conforme problematiza o fragmento de um manifesto nunca publicado, que utilizo aqui para concluir:

“[...] o teatro experimental, de pesquisa, de vanguarda, marginal, laboratorial, impopular – ou como queiram chamar o teatro que não busca apenas o entretenimento (Dicionário do Teatro Brasileiro/J. Guinsburg) – é dínamo incansável para o desenvolvimento sociocultural e artístico de sua época. Esta opção artística não é compatível com as leis de mercado [...] por não objetivar o lucro como resultado final, e sim o questionamento, a revisão ou a transgressão dos valores sociais, políticos, estéticos e culturais da sociedade onde se manifesta.

Obra de arte não é produto – afirmação herética para os liberais de plantão. Torna-se produto dependendo de uma série de fatores e circunstâncias que dialoguem com o mercado vigente.

Se uma obra, posteriormente à sua criação, polariza opiniões, acaba afugentando os investimentos que tem por prática valorizar o consenso. Porém, uma obra digna não deve abrir concessões no momento da formulação do seu dizer: está aí o paradigma que incompatibiliza obra de arte e mercado [...].”

Ofereço o pano para a manga. Traga a agulha e a linha.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Nominar

Estou em processo de montagem de um espetáculo-solo. Ou seria uma performance? Ou um picadeiro de clown? Teatro ou circo? Drama ou comédia? Farsa? Personagem ou persona? 
Lango-Lango Retardatário (2005)
Resido num momento em que a necessidade da satisfação pessoal se renova e que, mais do que nunca, estou aberto às interferências/influências provenientes sabe-se lá de onde, quando estou em processo, independentemente dos procedimentos.
O segredo do labirinto (2007)
A sala de ensaio é território de experimento e de sensibilidade: Leva-se roteiro, procedimentos, objetivos até bem claros de onde chegar, mas o corpo reage a sua maneira. O planejado se reconfigura, desiste de você para dar lugar e vazão a outras questões que afloram. 
Interstício (2007)
Nominar parece-me, neste instante, desnecessário, pois se é processo, tudo se configurará. E por que não dar ao expectador o benefício da dúvida ou de uma certeza só sua, pois o senso comum não diz que cada um tem a sua própria verdade? 
Canto da solidão... (2009)
A obra de arte sempre terá referências, não só de quem a idealizou, mas também de todo o contexto histórico da qual os expectadores participaram. São essas memórias de coisas que vivemos que nos dará estofo para a leitura possível da obra. Mais ativa essa plateia, impossível. 
Requiem aeternam (2009)
E se há papeis e atribuições definidas entre os seres (expectador e artista, por exemplo), por que não questioná-los? Compreendo que, quanto mais vazio de preconceitos, mais potência para o preenchimento desse vazio teremos.

Essa é a minha verdade. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Parabolicamente falho

- Sim, o  conhecimento, de nada te serve?
Não sou antenado. Me inquieta precisar saber, entender e falar de tudo e de todos. Essa habilidade de anedota, diz respeito a uma demanda contemporânea de inclusão e pertencimento, potencializada pela individuação e isolamento pela qual padece o homem contemporâneo. Creio no pertencimento a partir da interação natural com o entorno. Viver o que nos rodeia, sem que o raio dessa circunferência extrapole a lógica do nosso interesse: é mesmo importante saber quem é Anita? Não sei o significado de MC para a música, nem conheço o grande vanguardista do teatro contemporâneo do mês passado. Polissemias e polifonias confundem o meu raciocínio, contudo, procuro não confundir informação com conhecimento – aqui confundi-los-ei, propositadamente. Prefiro a calmaria da busca pelo conhecimento necessário à tempestade da informação me buscando. A calmaria é seletiva e permite a degustação, a tempestade é invasiva e pode provocar afogamento.  Quando grito para o meu desajustado cérebro, buscando algum conteúdo, e este dá de ombros, como dizendo – te vira, respiro fundo e respondo para o meu interlocutor – não sei. De uns tempos para cá, essa sentença tem se repetido com maior frequência, por compreender que, certas coisas que outrora pensava saber, eram apenas simulacros de conhecimento. Quando jovem é mais difícil dizer – não sei, pois, a necessidade de autoafirmação, nos obriga a saber de tudo, mesmo sem ter ciência de coisa alguma. Com o passar do tempo, percebemos que não somos obrigados a estar informados sobre tudo, e que não saber pode ser divertido, pois, te obriga a estudar. Em verdade vos digo: é bom não saber demasiadamente e melhor ainda é não ser o rei da informação. Ameniza a ansiedade, alivia o estresse, e desonera o coitado do seu interlocutor, que não terá mais que ouvir o quanto você é antenado. O tempo pode não ser o melhor remédio, porém, é o melhor companheiro.  Hoje sei que não sei muita coisa, só não sei se nada sei.
 
P.S.: Só não confunda sábio com sabido.
 
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os processos

Gosto de dizer que tudo está passível de mudança. Fechar-se equivale a morrer para as possibilidades outras que não aquela escolhida como identitária, definitiva. Nada o é.

A Pequena Companhia de Teatro tem no "Quadro de Antagônicos" seu procedimento metodológico para treinamento do ator e composição das personagens. Fiz parte de Entrelaços, Pai & Filho e Velhos caem do céu como canivetes e todos utilizaram esse mesmo procedimento. 
Entrelaços
Imagine o frescor de provar pela primeira vez o gosto do beijo da pessoa amada, ou experimentar o prazer provocado por uma Coca-cola com gelo e limão numa tarde ensolarada, à sombra de uma frondosa árvore. Essas experiências primeiras não se repetem, mesmo que continuemos a beijar a mesma pessoa e a tomar o mesmo refrigerante eternamente. As experiências são únicas, mesmo que a configuração possa aproximar daquela primeira sensação. Assim percebo os processos de encenação. 
Velhos caem do céu como canivetes
Podemos repetir infinitas vezes o mesmo procedimento para a montagem de nossos espetáculos, mas esse debruçar sobre a teoria na prática, num recorte único de tempo/espaço será inédito em sua configuração, sem contar com a nossa compreensão do método e da vida: mudamos, permanentemente, porque estamos em processo. Dizem que tem algo a ver com a maturidade. 

O viver para mim é experienciar, sempre.

sábado, 9 de agosto de 2014

Projetando sonhos


Enquanto apresentamos Pai & Filho [toda segunda-feira, às 19h, na Rua do Giz, 295, com entrada franca (adoro parênteses retos)], e ainda realizaremos seminários e leituras dramáticas, o momento é de projetar o ano de 2015. Projetos, aos borbotões, começam a ser esboçados, confeccionados, desenterrados, reinventados no intuído de continuar fazendo a única coisa que sabemos: teatro. Editais exigem projetos. Projetos são desejos não realizados que sempre tivemos e que, em determinado momento, o sistema nos autorizou a sonhar. Publicar um livro, montar uma banda, viajar pelo país com uma peça de teatro, escrever um romance... Sonhos, que em meados da década de oitenta estavam mais para delírios – lembrem sempre que falo de um passado no interior do Maranhão. Hoje podemos sonhar. Posso. Claro que sou engajado, e sei de todos os problemas que nos cercam, conteúdo do discurso que vocês estão acostumados a ler por aqui. Sei também que se novas políticas culturais públicas municipais, estaduais e federais eficientes não forem implantadas corremos os risco de morrer de fome já em 2015. Contudo, quem viveu como eu o passado de querer fazer teatro, não pode jamais se distanciar dele ao ponto de não enxergar as conquistas conseguidas depois de tanto lutar. Hoje a profissão é uma realidade. Outrora o amor provido pelo amadorismo era o combustível. Foi a nossa resistência que obrigou o poder público a se lembrar de que tem gente no país que insiste em fazer teatro. A conquista é nossa e o resultado está aí, por isso, não me queixo. Alguns podem dizer que fazer um projeto não é trabalho para um artista. Penso que todo projeto é um sonho indo para o forno. Eu não consigo imaginar ninguém pensando nossos sonhos melhor do que nós, artistas que os sonhamos. Romântico, outra vez. Mãos à obra, de arte!

domingo, 3 de agosto de 2014

Andanças de Pai & Filho


São Luís/MA → Imperatriz/MA → Balsas/MA → Riachão/MA → Presidente Prudente/SP → Guaramiranga/ CE → Natal/RN → Santos/SP → Rio de Janeiro/RJ → Timon/MA → Teresina/PI → Sobral/CE → Fortaleza/CE → Mossoró/RN → Santa Inês/MA → Belém/PA → Castanhal/PA → Parnaíba/PI → Palmas/TO → Porto Nacional/TO → Maceió/AL → Teotônio Vilela/AL → Palmeira dos Índios/AL → Arapiraca/AL → Vitória/ES → Caxias do Sul/RS → Passo Fundo/RS → Ijuí/RS → Santa Maria/RS → Porto Alegre/RS → Cuiabá/MT → Feira de Santana/BA → Recife/PE → Macapá/AP → São João do Miriti/RJ → Blumenau/SC → Itajaí/SC → Tubarão/SC → Paranavaí/PR → Curitiba/PR → São Paulo/SP → Belo Horizonte/MG → Porto Velho/RO → Florianópolis/SC → Rio do Sul/SC → Lages/SC → Chapecó/SC → Caxias/MA → Itapecuru Mirim/MA → São Bernardo do Campo/SP → Botucatu/SP → Franca/SP → Rio Claro/SP → Marília/SP → Piracicaba/SP → Campinas/SP.
 
111 apresentações, em 56 cidades de 19 estados, durante 04 anos de espetáculo, e você ainda não viu. Aproveite a temporada regular que acontece em São Luís, toda segunda-feira, 19h, na rua do Giz, 295, com entrada franca, até 22 de setembro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Mais um processo

Terça-feira começo o processo de montagem do meu novo espetáculo-solo, com estreia para o dia 29/09 (segunda-feira), às 19h, na sede da Pequena Companhia de Teatro. 

Meus processos, quando estou sozinho, são sempre uma incógnita e o resultado, comumente hermético. Este será diferente. Todo esquematizado na pré-expressividade e expressividade, observadores, roteiro escrito e... não será hermético. Certamente o espetáculo mais leve que farei. 


Não tenho temores ou pudores, pois acredito no que faço e acredito também que artista que se preza, tem que dar a cara para bater. Minha humildade franciscana me escancara às críticas. Cresço com elas e acho extremamente importante ouvi-las dos meus pares, pois aqui nesta terra a dificuldade em conseguir um diálogo com os fazedores teatrais existe. Entro em uma seara diferente da minha, mesmo passando pelas sábias mão de Lucio Tranchesi, Alexandre Luís Casali, Fernando Vieira, Ciléia Biaggioli e Ricardo Puccetti.

Serei criterioso em repassar o processo semanalmente por aqui. Os registros serão importantes para montagens posteriores, pois meu desejo continua a ser o abismo.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um homem cheio de novidades


E aí, quais as novidades? - Sou um homem sem novidades. Meus dias se repetem, respondo.

Tudo muda. Hoje, sou um homem com novidades. Aliás, este ano está se mostrando assim. A sensação de "pela primeira vez" está recorrente: sede nova, reapresentação de Pai & Filho em São Luís depois de longos anos, manutenção de repertório (desde a década de 80 que não sentia mais esse frisson), escassez de recursos para sobrevivência, solidões noturnas.


Há uma certa ideia de reinvenção em tudo isso. Ocupar o espaço urbano e espetáculo-solo, por exemplo, não reforçam ineditismos, mas estabelecem relações com a recuperação de ações passadas, como se o fato fosse negar a necessidade da novidade. Aliás, o que é novo? Talvez a novidade se estabeleça no acréscimo do tempo, em que o simples fato de estar se estabelece enquanto novo. Tudo que olhamos é novo, experienciamos, tocamos. É que nunca fora olhado, experienciado, tocado, com o acúmulo de informações que somos bombardeados a cada instante. 


Dessa forma, consolido-me como um homem de novidades. Tudo é novo enquanto envelheço. Este ano ainda promete mais, como os que virão: Pequena Companhia de Novidades.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Você sabia que...


... o espetáculo VELHOS CAEM DO CÉU COMO CANIVETES foi selecionado para o 21° Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga? A Mostra Nordeste, que acontece de 06 a 13 de setembro, recebe espetáculos de todos os estados nordestinos e a Pequena Companhia de Teatro será a representante maranhense na edição de 2014. Apesar da recente estreia, esta será a quinta participação do espetáculo em uma mostra ou festival de teatro, que já totaliza vinte e oito apresentações.

domingo, 29 de junho de 2014

Estamos em pleno lar

A retomada das nossas atividades, depois do recesso provocado pela copa do mundo, dar-se-á dia 21 de julho, com o início da temporada regular de Pai & Filho – pela primeira vez na Sede da Pequena Companhia de Teatro. Com isso, a configuração espacial do nosso teatro, área multiuso, sala de tortura, lugar de cena, ou qual alcunha você queira dar ao salão onde você prestigiou o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, mudará completamente – confirmando a versatilidade do espaço e enchendo meu tempo com uma alegria incomum. O tema, e o trabalho que ele demanda, são meus entretenimentos atuais. Entre um jogo e outro, ou com uma TV a tiracolo, me divirto reconfigurando o ambiente. Subo as escadas e instalo uma bambolina aqui, um cabo de aço acolá, uma corda ali, uma arquibancada lá, e o espaço onde outrora caíra um velho ser alado vai se transformando no ambiente de um pai enfurecido. O que propomos com a nossa sala de teatro é próximo à vivência que tive na cidade de Catania – Itália, onde toda a estrutura técnica de maquinaria (varas, contrapesos, cabos, cordas) foi herança vinda do mar, extraída da experiência adquirida nas embarcações, quando o teatro, ao utilizar mão de obra oriunda do porto, sem perceber, assimilava para si a expertise do homem do mar, com suas cordas, nós, mastros, roldanas e força. No teatro Massimo Bellini, apesar de ser um clássico teatro de ópera, não existe maquinaria fixa, e toda a estrutura técnica é montada e remontada de acordo com a necessidade do espetáculo que será apresentado. Atravessado o Atlântico, essa experiência fecunda a proposta de uma sala forneada com as mesmas cordas, ganchos, roldanas e nós que um dia conduziram os invasores da nossa Upaon-Açu. Você não vê, nem repara, mas por trás de cada apresentação esconde-se um torvelinho de fatores que tornam o teatro esse incomensurável ambiente de sensações. Mire e veja.

domingo, 15 de junho de 2014

Teatro & Futebol

O futebol me abandonou, a arte não. No início da década de noventa eu viajava para Araguaína/TO com uma caixa de livros, entre eles a prosa completa de Borges – presente que me acompanha desde 1987 –, para dividir uma república com jogadores de um time de futebol cujo nome minha memória se ocupou de não reter. Nesse então, morando em Balsas, era atleta e artista simultaneamente, fazendo teatro, música e literatura, há alguns anos. A rotina de artista, em Balsas, me fazia ensaiar até às quatro da manhã.  A mudança para uma rotina exclusivamente atlética, em Araguaína, me fazia madrugar às cinco da manhã, para treinar. O despertador escolhido pelos meus companheiros era um som sintonizado na rádio local que gritava: eu não vou negar que sou louco por você! Acredite. Deixe sair aquele sutil sorriso no canto da boca: sim, também tive o sonho de ser jogador de futebol. Não me pergunte por que motivo, mas este era o meu principal desejo. Não durou muito, ou seja, o teatro que faço é consequência do meu maior fracasso. Recentemente, na plateia de Velhos caem do céu como canivetes, um espectador comentava: só conhecia você como o argentino, cabeludo, bom de bola. Além de estufar meu peito, o fato serviu para confirmar meus predicados futebolísticos para minha companheira – sempre reticente com minhas possíveis fabulações sobre o passado. Sim, eu era bom. Considero-me melhor jogador no passado do que sou encenador no presente – se isso quer dizer alguma coisa. Por isso, não saberia apontar por que não sou um jogador aposentado. Talvez a aleatoriedade defendida pelo Ser Humano, personagem do nosso último espetáculo, seja a única maneira de explicar o encenador de hoje. A aleatoriedade como que minha vida e trajetória foram constituídas é digna de nota... O gordo prólogo que aqui escrevo só existe para tentar explicar a sentença que motiva esta postagem: não acompanharia sessenta e quatro peças de teatro em um mês de festival, mas assistirei aos sessenta e quatro jogos da copa sem o menor constrangimento. Mas, como sou uma ficção, não dê muito crédito às anedotas que constroem o roteiro da minha vida. Y dale!

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Recesso

Do filme "Sonhos", de Kurosawa

As apresentações estão suspensas. A realização da Copa do Mundo no Brasil sentencia que todos gostam de futebol. Não me espanta. Mês para produzir, pensar, refletir e executar ações adiadas há tempos. Planejamos o próximo semestre: volta de Pai & Filho à cena teatral ludovicense - oportunidade para alguns tantos assistirem a um outro espetáculo. Jorge C. tira a barba e eu a deixo crescer em meu rosto. Muda a energia, as personagens. Os atores são os mesmos; o espaço, não. Primeira vez de Pai & Filho na sede da Pequena. Tudo é muito recente este ano. Mudança de ciclo, amadurecimento, pesquisa. Tenho minhas inquietações e elas repercutem em meus sonhos; muitos sonhos, todos eles emblemáticos. Mesmo gostando de rotinas, a cada ano que passa eles têm se tornado atípicos. Para quem não curte surpresas, estou bem servido delas. Se me queixo? Aguardo o desenrolar das horas. Se sofro? Abraço todas as sensações que meu corpo experimenta. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Esse ator


Se eu sou um tipo, sou do tipo inquieto, e essa inquietude nunca é o suficiente. Buscar sempre, parece-me, é tarefa indistinta de formação: se estou vivo, busco. Contrário disso é a morte, em todas as suas possibilidades. Sempre tenho dúvidas sobre se a profissão do artista chega a ser privilégio ou maldição. Tenho dúvidas também se a minha angústia mais ajuda do que atrapalha. A exigência é desmedida, a ansiedade presente, os processos cíclicos. Não chega a ser um queixume. Os pensamentos evoluem para a palavra escrita. A palavra escrita é manifesto inconteste. Prevalece o dilema entre o de dentro e o de fora. Tudo é acúmulo com possibilidade de vir a ser descarte. Rasgar, colar, emendar, torcer, estirar. O corpo carece de morada e ao mesmo tempo ele é a própria morada. Habitar e ser habitado. O quê nos difere? O quê nos distancia? Assumir a minha unicidade não faz de mim um tolo. Talvez uma descrença tardia na minha incapacidade de recitar um teatro que desacredito como transformador. Quem me transforma? Quem me mobiliza? Esse todo bebo em partes.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

V(ai)(er)dades e mentiras


Para compreendermos as coisas, estabelecemos parâmetros de comparação. Em nossa sociedade tudo é dual; forças antagônicas que nos fazem posicionar entre pois pontos equidistantes: bem e mal; claro e escuro; vida e morte; verdade e mentira.

O teatro envolve a ambos. É ficção, mas espelha sua diegese, suas dramaturgias, na realidade; tem que ser verossímil. 

Alguém disse uma vez que as verdades são ditas quando as pessoas que as ouvem, estão dispostas a ouvi-las. Traduzo como maturidade, a ponto de saber ouvir o que não se quer ouvir. O Teatro caminha por aí em duas vertentes, acho. Uma delas é sua forma e conteúdo que atraem ou repelem o espectador. Gostar ou não gostar tem a ver com esse princípio: não se convencem de que era uma verdade; não a compram como tal. Uma história mal contada. Uma mentira. Comumente queremos ouvir verdades; convencionou-se que as mentiras fazem mal. Então, mentir é ruim e não mentir é bom. E quando mentimos para nós mesmos quando comentamos sobre algo que achamos bom, sendo que achamos ruim? Mentiras contadas permanentemente, acabam se transformando em verdades. Daí minha conclusão que quando mentimos para os outros, também mentimos para nós mesmos. A necessidade de verdade no teatro não se restringe aos que estão em cena, mas também aos que espectam. A maturidade necessária para se ouvir a verdade é alicerce para o fortalecimento do movimento teatral num dado espaço e tempo. Quem faz teatro precisa ser criticado, precisa querer ouvir. Quem vê teatro precisa criticar, precisa ser autêntico e menos apaziguador. 

Desistir também é uma alternativa.

domingo, 25 de maio de 2014

O prazer de ser autônomo

Hoje acordei às 6h10 da manhã – os poucos que conhecem minha rotina sabem o quanto isso é improvável. Levantei e fui trabalhar. De casa ao trabalho são dois lances de escadas, para cima ou para baixo. Trabalhei. Quando o relógio mecânico marcava 8h20, o biológico anunciou que o meu sono voltara. Fiz o trajeto de vinda e voltei para a cama. Simples assim. Não há nada mais delicioso que a autonomia de trabalhar, acordar, comer, namorar, dormir, correr, em qualquer ordem, hora ou dia. Foi a arte que me proporcionou esse privilégio. O teatro. Enquanto fazia algo do que fiz enquanto acordado, pensava no quão romântico continuo sendo. Faço teatro porque gosto. A única motivação que me levou a traçar a minha trajetória foi gostar de fazer o que faço. Se em algum momento da vida tivesse pensado em sobrevivência, o teatro teria me largado. Irresponsavelmente, nunca pensei no que é necessário para viver: livros, comida, água, roupa, luz, telefone, yerba, internet. Tudo sempre veio a reboque de um desejo, de uma vontade, de uma necessidade de expressão que só encontrava guarida no teatro. Irresponsavelmente romântico. Nem o tempo, que promove aquele implacável vergamento do ser, fazendo-o observar atento o chão que pisa sem poder alçar o voo libertário em busca do céu, conseguiu aplacar essa irresponsabilidade. Um romântico irresponsável. Um homem nessa condição não tem direito de protestar – se esse homem só enxerga seu umbigo e não vê a miséria que o circunda. A propósito, Velhos caem do céu como canivetes trata dessa miséria que você finge não ver. Não quer dar pelo menos uma espiadinha? Segunda-feira tem apresentação, às 19h, em uma Pequena Companhia de Teatro perto de você – e bem mais perto de mim.

P.S.: E antes que algum gaiato venha contestar qualquer coisa que eu tenha dito ou contradito, não se esqueçam do principal: eu sou uma ficção.

São Luís, 23.05.2014 – 13h10



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Segundas-feiras


17h30 - Chegada na sede da Pequena Companhia de Teatro. 
  • [Tenho oscilado esse horário. Comumente chego antes para verificar elementos de cena, limpar as cadeiras]


17h45 - Início do alongamento individual e da passada de texto com o Jorge C. 
  • [Ficamos no fundo do cenário, entre a coluna e as pernas. Diferentemente de Pai & Filho, cada um segue um alongamento particular, de acordo com as exigências da personagem e do corpo do ator]


18h - Início do aquecimento, utilizando o Quadro de Antagônicos para tal. A passada de texto continua.
  • [A minha ordem, comumente, é: velocidade/dilatação/retração/agilidade/dureza/máximo/mínimo/gueixa-feminino/samurai-masculino/leveza/peso/tensão/velocidade]


18h15 - Figurino e maquiagem.
  • [Os atores fazem suas próprias caracterizações. Jorge C. me ajuda com a maquiagem das costas e eu o ajudo colocando as asas. Um dia uma delas caiu. eu quis a morte! Percebemos depois que não era minha culpa, minha máxima culpa, mas sim da fita que perdera parte de suas propriedades de aderência]


18h40 - Como uma ou duas maçãs.
  • [Em Pai & Filho comecei a criar o hábito de fazer gargarejo com água morna, vinagre e sal. Um equívoco de minha parte. Sensação de ressecamento das pregas vocais. Depois, mudei para as maçãs. São adstringentes. As massudas não funcionam bem. Mas, quando não tem maçã, o espetáculo acontece assim mesmo. Somos cerimoniosos, mas nem tanto]


18h45 - Origem da personagem.
  • [Há oscilação no horário para a origem. Depende de muitos fatores. Esperamos o contato de Marcelo F. Iniciamos na primeira batida de Molière. Essa origem é para fazer com que o corpo relembre a forma da personagem, a partir dos antagônicos escolhidos por cada um dos atores. Esse procedimento é repetido igualmente antes de cada apresentação. No meu caso: de pé, fecho os olhos, inspiro e expiro 10 vezes, como se meu corpo estivesse buscando um relaxamento proveniente do cansaço exaustivo do corpo. Na última expiração, elevo meus braços acima da cabeça e na última inspiração deixo-as cair em direção ao chão, juntamente com meu tronco. Ainda de olhos fechados, começo a flexionar meu joelhos tentando elevar meu tronco à posição inicial, mas com uma certa dificuldade, proveniente da fraqueza sentida pelo corpo. Com o tronco elevado, já se estabelece um certo equilíbrio precário decorrente da curvatura da coluna, não muito projetada. A cabeça gira 360º para a esquerda e para a direita. A máscara já começa a se consolidar. A coluna um pouco mais curvada. Dou 10 pulos com uma força mínima a ponto de não conseguir retirar ambos os pés do chão. Abro os olhos. Inclino-me para a direita, elevando o pé esquerdo do chão. Uma força mínima e um mínimo de equilíbrio torna essa ação mais efetiva para que o corpo perceba sua fragilidade. Para mim funciona como uma espécie de termômetro. Repito para o outro lado. Pronto, agora posso andar. Ando pelo banheiro compartilhando o espaço com Jorge C. Começo a oralizar parte do texto. Algumas falas se repetem nesse procedimento: "Cobre teu corpo..."; "Meu pai os arrancou..."; "Estou brincando...". Agacho-me de duas a três vezes, repetindo formalizações de cenas do espetáculo. Entre a segunda batida e a terceira, bebo um copo com água previamente deixado sobre a pia. Ressono um pouco mais. Quando ouço a terceira batida, apago as luzes, Jorge C. abre a porta. Saímos e eu a fecho. Ficamos atrás do galinheiro esperando a sonoplastia. Jorge C. vai para a sua marca. Eu continuo, por detrás da coluna, ressonando e andando de um lado para o outro, até o momento de ir à minha marca.


19h - Início do espetáculo.

20h - Término do espetáculo.
  • [Em algum momento volto para casa. Tem noites que feliz, tem noites que triste, tem noite que pensativo. Algumas sensações não são compartilhadas. Há uma necessidade de amadurecimento do sentir, do pensar, a partir da execução a obra. Hoje, as noites de segunda têm estado mais interessantes - como as de quarta-feira. Restam-me alguns dias na semana para eu preenchê-los com arte, com desejo, com ternura]

sexta-feira, 16 de maio de 2014

E como é?

Foto de Gilberto Freire
Ah, os sonhos... Quem não os têm? 

Sonhei que queria trabalhar em algo que me desse prazer, se contrapondo à maioria das pessoas que buscam, através do consumo, o motivo para o labor: dinheiro, casa, carro, viagens. Que caminho é esse que escolhemos querendo ser felizes para o resto da vida? Que felicidade é essa que nos faz sucumbir ao cotidiano ou a necessidade de se agitar, executar ações, trabalhar para prover o sustento?

[apaga tudo]

Acordei, como todo os dias. Vontade de ficar em casa. Pensei, por alguns instantes, que precisava me levantar da cama, fazer o que comumente faço e sair de casa, me exercitar. Pensei na virtualidade das redes sociais, no filme Her, nas possibilidades dos equívocos praticados. Pensei muito. Não há porque chegar a conclusões, e hoje é sexta, não quinta. Sou brasileiro, final de semana, descanso.

[reescreva algo]

Editais para ler, projetos para escrever, postagem para redigir. Demandas. Comida no fogo, ração na tigela. 

Professor, ator, animador de festas, palhaço de frente de loja. Alugo meu tempo. 

[ouça mais música, diriam]

É viver lentamente cada momento, como se a vida não tivesse final garantido, e que as escolhas não foram gratuitas, e que a rotina não é rotina. 

O oxigênio se renova, a respiração, mesmo constante, oscila. 

[Ser ator?]


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maio e junho de 2014


MAIO

Dias 02 e 07, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 05, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 08 e 09,  das 08 às 12h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 12, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 17 e 18,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 19, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 20, 21 e 22, das 19 às 22h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 21, 23 e 28, das 14 às 17h - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dias 24 e 25,  das 14 às 18h - Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia (oficina).
Dia 26, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 27, 28 e 29, das 08 às 12h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 27, 29 e 30, das 14 às 18h - O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).


JUNHO

Dia 02, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).
Dias 03, 04 e 05, das 18h30 às 22h30 -  O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator (oficina).
Dias 07 e 08, das 14 às 18h30 - O quê o meu corpo tem a dizer? (oficina).
Dia 09, às 19h - Velhos caem do céu como canivetes (espetáculo teatral).


IMPORTANTE:
Toda a programação ocorrerá na sede da Pequena Companhia de Teatro 
(Rua do Giz, 295, Centro Histórico).
A lotação está restrita a 45 (quarenta e cinco) lugares.
As atividades são gratuitas.
Para agendamento de grupos, gentileza entrar em contato antecipadamente.
Os interessados nas oficinas devem se inscrever antecipadamente aqui.
As dúvidas devem ser sanadas através dos contatos: pequenacompanhiadeteatro@hotmail.com / (98) 3232-6054 / 8133-2172 / 8771-7085.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Novos ecos...

 
a desesperança no palco é espelho para a desesperança dentro, ao redor e fora da ilha, mergulhada numa ausência de planos, horizontes, luzes. o espetáculo 'velhos caem do céu como canivetes', que finalmente fomos ver ontem, é dessas experiências que vão com a gente para casa a nos fazer pensar, rever, ressignificar, repensar, reagir... a renúncia à ação, aos projetos, à vida. um deixar-se ficar com ou sem asas. a simbologia do voo atirada no lodo do mangue e da morte. e ao final, luzes acesas, a certeza de que é na arte que estão as asas que nos elevam e nos levam à ação, ao movimento... arte é vontade, desejo, fome de viver e ao mesmo tempo alimento. livremente inspirado no conto 'um senhor muito velho com umas asas enormes', de gabriel garcía márquez, o espetáculo apresenta em cena o grande teatro mínimo a que se dedica a pequena companhia de teatro. palmas para marcelo flecha, jorge choairy, cláudio marconcine e kátia lopes. permanece em cartaz até junho, às segundas-feiras, sempre às 19h, no casarão da companhia (rua do giz). 
Andréa Oliveira

Ontem fui ver o espetáculo “Velhos Caem do Céu como Canivetes” da Pequena Companhia de Teatro, sai de lá com a certeza de que estão no caminho certo, como trabalho com iluminação, vou tecer elogios para as excelentes soluções encontradas para os momentos, a sincronia perfeita , beleza e leveza das passadas das cenas, tudo num só ritmo, encanto-me ainda pela luz alternativa, a qual venho estudando ultimamente. Obrigado Marcelo Flecha por esse momento, aos atores Claudio Marconcine e Jorge Choairy estão excelentes e a produtora Kátia Lopes que nos recebe como sempre, muito bem. A Pequena Companhia de Teatro merece tudo, que venham mais prêmios e outros incentivos. Aplausos.
Julio Cesar da Hora
 
VELHOS CAEM DO CÉU COMO CANIVETES

Este é o título do espetáculo teatral em cartaz na sede da Pequena Companhia de Teatro, situada na Rua do Giz, quase X com a escola de Música Lilah Lisboa, no centro da cidade (o endereço completo publicarei depois).

Sendo uma adaptação livre do conto “UN SEÑOR MUY VIEJO COM UNAS ALAS ENORMES”, de Gabriel Garcia Marquez, o texto, assinado pelo encenador Marcelo Flexa, tem momentos de rara beleza: de humanidade e de fina ironia.
 
O elenco de dois atores tem um equilíbrio cênico bastante bom. Jorge Choairy, o velho que caiu do céu, com sua atuação quase irrepreensível, faz um perfeito contraponto dramático com a encenação um tanto caricata de Claudio Marconcine, que interpreta o “ser humano” comum. E a carpintaria é sensível e de boa plástica...
 
Bem, isso aqui não é um release, tampouco uma crítica, é apenas um comentário despretensioso de um espectador, que na noite de ontem esteve lá para ver e aplaudir esses bravos rapazes e uma moça, que, antes de tudo, protagonizam uma verdadeira façanha que é fazer teatro de qualidade nesta província onde o folk lore domina as atenções de todos os daqui e dos que vão chegando.
 
(A peça fica em cartaz até o mês de junho, com apresentações todas as segundas, às 19 horas. Eu recomendo fervorosamente!)
 
Luis Mello Neves